UMA PERSPECTIVA TRANSFORMADORA SOBRE A ESSÊNCIA E O PROPÓSITO DA LIDERANÇA (Altair Germano)

Liderar é servir. Longe de comprometer o princípio de autoridade, e com isso provocar o anarquismo institucional, a liderança servidora fortalece a relação líder-liderado.
A liderança servidora é um princípio ensinado já no Antigo Testamento (2 Cr 10.7), que se amplia em termos de exposição no Novo Testamento, principalmente através do ensino e exemplo de Jesus.

A LIÇÃO DE JESUS SOBRE A LIDERANÇA SERVIDORA

Então, se aproximou dele a mãe dos filhos de Zebedeu, com seus filhos, adorando-o e fazendo-lhe um pedido. E ele diz-lhe: Que queres? Ela respondeu: Dize que estes meus dois filhos se assentem um à tua direita e outro à tua esquerda, no teu Reino. (Mt 20.20-21)
Bastou ser anunciada a participação dos discípulos no Reino futuro, e dos doze tronos onde sentariam para exercerem a autoridade de juízes, que o desejo por privilégio, posição e honra diferenciada foi despertado (Mt 19.28). Os dois lugares de maior destaque ao lado do trono da glória do Filho do homem se tornaram o centro dos interesses e da disputa.
     A mulher de Zebedeu, é quem se encarrega de articular uma possível garantia dos melhores lugares para os filhos. Afinal de contas, privilegiar familiares e parentes parecia algo bastante coerente. Reverentemente ela se ajoelha diante de Jesus, e certamente com voz mansa e em tom reverente intercede pelos filhos.
Jesus, porém, respondendo, disse: Não sabeis o que pedis; podeis vós beber o cálice que eu hei de beber e ser batizados com o batismo com que eu sou batizado? Dizem-lhe eles: Podemos. E diz-lhes ele: Na verdade bebereis o meu cálice, mas o assentar-se à minha direita ou à minha esquerda não me pertence dá-lo, mas é para aqueles para quem meu Pai o tem preparado. (Mt 20.22-23)
Longe de qualquer atitude nepotista ou de apadrinhamento, Jesus reponde ao pedido daquela mãe, e revela a insensatez do mesmo. A aparente prerrogativa de “beber o cálice”, expressão idiomática que significa “seguir o mesmo destino”, faz com que os filhos manifestem a disposição de enfrentar qualquer coisa, desde que isso resultasse na conquista dos dois lugares de maior honra. Eles beberiam o cálice do sofrimento, mas sobre os lugares, a resposta de Jesus é reveladora: “é para aqueles para quem meu Pai o tem preparado”.
Os lugares de honra no Reino de Deus são determinados pela graça e pela soberania de Deus, reservados segundo o seu eterno conselho (Jo 15.16; Jr 1.5; Gl 1.15). O verbo grego etoimastai (preparado), se encontra no tempo perfeito e na voz passiva, ou seja, fala de uma ação concluída (determinada) no passado. A ação é sofrida,  em vez de executada por nós. Deus é quem determina e executa a ação. Os lugares não são para quem os quer ou deseja, antes, são para aqueles a quem Deus de antemão escolheu (1 Cr 28.4-10).
Quando entendemos claramente a questão da soberania de Deus na escolha de quem senta onde, deixamos de brigar e disputar a qualquer custo por lugares no Reino. Nossa atitude muda, e passamos agora a procurar conhecer e a buscar os lugares que Deus para nós preparou. Agindo dessa maneira, um número sem fim de intrigas, questões, contendas, conflitos, facções, rixas, guerras e coisas semelhantes a estas se findarão em torno de cargos e posições.
E, quando os dez ouviram isso, indignaram-se contra os dois irmãos. (Mt 20.24)
Temos aqui o primeiro conflito entre os discípulos de Jesus em torno de lugares de honra e privilégios. Percebe-se que o foco não está em como serviriam no Reino, mas, em como exerceriam o poder e a autoridade. A disputa não é por trabalho, é por prestígio e por poder.
Quando os melhores lugares são procurados e disputados, o sentimento de cooperação dá lugar ao sentimento de competição. Amigos se tornam inimigos, irmãos se tornam adversários, obreiros se tornam meros políticos envolvidos em campanhas eleitorais eclesiásticas intermináveis.
Na atualidade, disputas semelhantes se multiplicam em todas as instâncias da liderança cristã, que vai desde os lugares na direção de um departamento ou setor da igreja, até a um lugar na diretoria, ou na presidência da mesma.
O resultado do pedido da mãe articulista e do desejo dos dois filhos oportunistas foi a expressa indignação e irritação dos demais.
Então, Jesus, chamando-os para junto de si, disse: Bem sabeis que pelos príncipes dos gentios são estes dominados e que os grandes exercem autoridade sobre eles. Não será assim entre vós; mas todo aquele que quiser, entre vós, fazer-se grande, que seja vosso serviçal; e qualquer que, entre vós, quiser ser o primeiro, que seja vosso servo, bem como o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e para dar a sua vida em resgate de muitos. (Mt 20.25-28)
Em meio ao conflito estabelecido, Jesus logo percebe a oportunidade de ensinar lições e princípios do seu modelo de liderança. Uma mudança de paradigmas haveria de acontecer.
A visão de poder e autoridade que os discípulos possuem fundamentam-se na perspectiva dos “príncipes dos gentios” (governadores dos povos pagãos). Trata-se de um conceito distorcido, onde a classe dominante exerce a opressão e a exploração sobre os dominados.
A autoridade e o governo no Reino de Deus, segundo a revolucionária visão do Mestre, se fundamentariam no serviço prestado ao próximo, através da concessão divina de dons, talentos e ministérios (Ef 4.11-14; 1 Co 12.11; Hb 5.4).
O líder-servo atende a todos, amigos e inimigos, os sinceros e os falsos, os fiéis e os traidores.  Servir a todos, e não ser servido. Dar a vida, e não explorar vidas. Eis a grande revolução da liderança servidora.

O EXEMPLO DE JESUS DE LIDERANÇA SERVIDORA

     A reunião da mesa diretora acontecia, quando de repente o presidente resolve engraxar os sapatos de todos os demais membros, provocando certo desconforto em alguns, que não admitiam a postura e a atitude do “chefe”. Foi dessa forma que os discípulos de Jesus se sentiram.
          Cingido de uma toalha e com uma bacia em mãos, sob o olhar desconfiado e espantado dos discípulos, Jesus passa a lavar-lhes os pés. Naquela simples atitude estava o princípio de toda a atividade da liderança-servidora. A grandeza está em servir. A nobreza não está na função exercida, no título, no cargo ou na posição, antes, está no serviço prestado ao outro, no trabalho que realizado em amor edifica e restaura vidas para a glória de Deus.       O desejo por toalhas deve sobrepujar o desejo por tronos. O desejo de servir deve estar acima do desejo por status.
         Na liderança-servidora ensinada e vivida por Jesus, a glória dos tronos deve ser superada pela beleza e simplicidade do serviço. O poder-ser pelo poder-fazer.

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