VIDA DE ESCRITOR (Luiz Tarquinio Pontes)



Um escritor cristão deve ser um pregador cujas homilias são mais bem desenvolvidas quando são mudas, sem sons e proferidas com os dedos, não em riste, mas em cima de um teclado santamente inspirado. Ele é o seu microfone, as línguas são os dedos, a platéia somente um leitor, o púlpito, quatro isolantes e deliciosas paredes, companheiras de longas e laboriosas horas de trabalho.

Escrever, na verdade, não é difícil, basta somente a noite. É só desligar a televisão para ativar a visão dos parágrafos escritos pelo Verbo inconjugável, do qual somos apenas ponto com uma fina, esquálida e limitada vista. Para ser escritor o melhor é não fazer estilo. Dizer o que se deseja e pronto. Não há nada mais patético do que sons, palavras e gestos distantes das inerências.

Para escrever não basta à submissão aos padrões literários, ao contrário, isso apaga as impressões digitais dos parágrafos. Um escritor jamais deveria se perguntar: poesia ou prosa? Deve passear sem estilo e sem fazer disso o seu próprio. Não deve ser um chato intelectual do “contra” ou mais um daqueles havaianados de pés em humildades soberbas. A vaidade é a mais difícil das virtudes e até quando conquistada pode levar ao “sapato alto”- ou às havaianas. No campeonato do “mais humilde” ganha quem não faz estilo... Descobrir quem é e se respeitar pode ser o primeiro passo. O resto é Paraguai...

Não se deve ser um musicista das letras, um trabalhador das linhas de montagens vernaculares. Nunca! Mas observador, aluno que nas suas linhas expressa suas paixões mais entranháveis, e cada junção de letra deve ter um alvo supremo, uma meta específica. Pois a palavra não é fim em si mesma, o verbo por si só é um fracassado, menor abandonado, a não ser que se faça conjugar com o Verbo maior e se dobre ante aos Seus anseios

Escrever o texto não é o mais importante... Eu pessoalmente não quero escrever, quero viver, pois palavras serão sempre uma questão meramente gramatical, léxica, mas distantes milhas da prática. Um verbo é sempre mais fácil de ser tecido do que a vida de ser vivida. Como disse Paul-Émile Léger ao renunciar ao cargo de Arcebispo de Montreal para se dedicar aos leprosos e crianças deficientes na África: “O tempo de falar acabou”

A vida do escritor é seu mais importante livro, que avalisa ou apaga os verbos por ele conjugados, incendiando-os com a unção de Deus ou os incinerando no lixo. Uma frase de efeito, um verso bonito, um parágrafo irrefutável, um livro genial, uma pregação bem dita, se não promanar da prática vivida ou do ardente desejo em vivê-la futuramente, é tão profundamente efêmero como os novos lançamentos de pagode baiano. Palavras bonitas são somente palavras bonitas, uma vida bela é a mais bonita das palavras. O escrito deslumbrante é somente o que provém do lápis de uma vida que o espelha. Vivedor mais que escritor, é o que devemos ser.

Por fim, quem escreve não deve se importar com os “feedbacks” dos ouvintes, pois isso é o mesmo que desejar os elogios após uma santa homilia. Quem para isso escreve ou prega deixou para trás há muito tempo as purezas mais fundamentais da vida. Ao contrário, o melhor dia de um pregador é quando ele sai arrasado do púlpito depois de uma péssima pregação, o de um escritor quando o papel vai ao lixo. Tornam-se mais cristãos. O problema é quando há ovação, aí sim, é luta inglória, terrível, pois os anjos diabólicos parecem que gostam mais de nós quando de nós mais gostamos.

(Luiz Tarquínio Pontes)

 

Comentários   

 
#1 avaliaçãoIvone de Oliveira 22-09-2015 10:51
Creio que o melhor dia de um pregador, deve ser, no dia que o ESPIRITO DE DEUS FALA PELA SUA BOCA. Porque ai sim, os pecadores serão convencidos dos seus pecados e que o ÚNICO MEIO DE SEREM SALVOS É POR MEIO DA FÉ NO SENHOR JESUS CRISTO.
 

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