PERDA DE FOCO MAGNÍFICO (Luiz Tarquinio)

“E, levantando-se dali, foi para os termos de Tiro e de Sidom. E, entrando numa casa, não queria que alguém o soubesse, mas não pôde esconder-se; Porque uma mulher, cuja filha tinha um espírito imundo, ouvindo falar dele, foi e lançou-se aos seus pés. E esta mulher era grega, sirofenícia de nação, e rogava-lhe que expulsasse de sua filha o demônio. Mas Jesus disse-lhe: Deixa primeiro saciar os filhos; porque não convém tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos. Ela, porém, respondeu, e disse-lhe: Sim, Senhor; mas também os cachorrinhos comem, debaixo da mesa, as migalhas dos filhos. Então ele disse-lhe: Por essa palavra, vai; o demônio já saiu de tua filha. E, indo ela para sua casa, achou a filha deitada sobre a cama, e que o demônio já tinha saído.”
Marcos 7:24-30

Tiro e Sidon, territórios da Síria que norteavam a Terra Prometida. A estada real simbolizou os primeiros sinais de um véu prestes a se rasgar, e que iria revelar Deus ao mundo. A tesoura divina já estava se aproximando do Templo. Neste lugar gentílico, Jesus entrou numa casa sem desejar ser notado. Precisava privatizar-se um pouco, suprir carências particulares. Os ecos, manchetes e holofotes não O persuadiam, preferia o silêncio, a calma e o retiro. Inobstante os esforços para o recato, uma mulher O achou. Árdua a tarefa da lâmpada não iluminar. Por mais que tentasse se esquivar das atenções, Jesus não conseguia. O intenso perfume de aroma transcendente a brotar da Presença cativava a todos com grilhões de amor. Tinha cheiro de aceitação, alegria e paz, atraindo os corações em frangalhos.
Aquela mulher O descobriu. Não se sabe como se deu o achado. Quem sabe um sonho...  Se o foi, certamente melhor sono não houve. Incrível o sonho em cujas imagens aparecem indicadores do Cristo. Quiçá um sinal cósmico como no dia do nascimento. Que visão insólita aquela indicativa da presença divina. Será que o astro, assim como em Belém, revelou a presença do Emanuel? Não sabemos... O que sabemos é que uma mulher grega descobriu Tesouro. O mapa é o menos importante.
Talvez já tivesse aprendido as marcas de seus heróis. Talvez conhecesse, por ouvir dizer, os gigantes de sua nação. Deve ter ouvido de Sócrates, Platão e Aristóteles, gênios que alargaram modos, mentes e verbos, mas que não conseguiam ir além das linhas dos limites humanos obstaculizadores do transcender. Ela precisava de um verbo maiusculizado, a fim de realizar ações que excedessem a entendimentos. Ela precisava de um milagre...
Ela achou a Jesus, mas precisamente os Seus pés. A genuflexão demonstra uma graça anterior, ocorrida no seu coração gentio. Sua fé pagã tornara-se a mais ortodoxa de todas, pois reclinara-se ante o mais corretos dos Seres, atirando-se diante do Rei em louvor absoluto. Não se dignou ver-Lhe os olhos, foi direto aos pés, rosto em terra de adoradores.
Mas qual seu pedido? Um cavalo de raça? Uma casa nova? Uma túnica “moderna”? um diploma? Não... Seu pedido era justo. A cura da filha, perseguida por um espírito diabólico que a consternava a mente e o corpo. O demônio tinha chegado antes na casa. Não a tocou, fez muito pior, tocou onde mais toca. Sua filha tornara-se vítima de seres especializados em fabricar sofrimento e dor. Quantas dores a desta mãe, arquétipo de tantas outras insabidas, gritos de pais alvejados no coração por males adquiridos pelos filhos. Quão forte a dor dos que tiveram seus nervos profundamente feridos ao verem rebentos arrebentados. Quem poderá falar alguma coisa deste sofrimento...? Todas as palavras devem descansar diante de cena tão mórbida, são desautorizadas a participarem da imagem, devem se manter enjauladas, presas, caladas, mortas. Não foi a esmo que Jesus verticalizou tantos filhos ao longo do Seu ministério.
Ela não era Judia. A prioridade era do Judeu, mas o Mestre não podia deixar de recolher as lágrimas da mãe afogada pelas águas do desespero, ainda que fosse necessário um escapulir ao foco. Jesus abriu espaço em sua agenda para fazer algo que em verdade já estava muito bem agendado e determinado nos “scripts” divinos. E sem dizer nada, uma só palavra, sem proferir um só verbo, o Verbo curou. O Deus que cura com palavras também cura sem utilizá-las. E quando falou não foi para curar, mas para atestar sanidade libertadora.
Ninguém entra na presença de Jesus sem receber graça por palavras e por silêncios também. O modus operandi do Cristo é completamente desmodelado, não há como pretender formatar os caminhos divinos, prendendo grande Leão em jaula de papelão. Aquele que criou seres tão diferentes, evade-se a uma metodologia sistemática das práticas e ações. O médico não utiliza a mesma prescrição para todos os pacientes nem os mesmos instrumentos são usados nas diversas cirurgias. Quem fez o mundo e os variados matizes de tudo, não se submete aos rigores de um só método. A falta de criatividade é vocação de homens não de Deus.

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