REPENSANDO RAPIDAMENTE A VOCAÇÃO (Luiz Tarquinio)

Talvez seja um termo estranho para muitos de nós. Aliás, algumas palavras se tornaram tão conhecidas que passaram a ser indecifráveis, como verbos reiterados, ditos de reza, como fraseados aos milhões repetidos, mas que não dizem nada. São os “tudo bem” os “como vai?”, os “bom te ver” cotidianos. O termo vem de “vocare”. Significa chamado, requestado, solicitado.

Como seres criados por Deus, temos todos tarefas a desempenhar enquanto vivemos, algo que fomos chamados a fazer, uma VOCAÇÃO. Infelizmente, parece que a história maculou a palavra, fazendo-a possuir sentido sinonímico tão somente ao exercício do ofício pastoral ou missionário. Não me lembro de ter escutado alguém aludir a um chamado específico de Deus para ser professor, médico, engenheiro, pedreiro ou zelador, ou qualquer outro ministério não clerical. É como se Deus não falasse com o “segundo escalão” ou se sua voz fosse monopolizada pelos ouvidos dos vocacionados com “V” maiúsculo.

Se algum irmão me procurasse para informar acerca do chamado de Deus para se tornar astronauta, poderia cometer gafes de risadas pela ignorância... Minha é claro!!! Porque ainda não consegui plenamente descosturar o vestido da tradição eclesiástica que vê a vocação como algo somente de pastores e afins. Este texto é uma tentativa de procurar o fio do vestido ou quem sabe a tesoura, para realmente verificar mais acuradamente se será necessária puxar o fio ou fazer a tesoura trabalhar.

Abrindo um parêntese, minha regra de fé e prática é a Bíblia e não as tradições. Sou batista. Por isso, estou disposto a repensar a minha tradição, à luz da bíblia, no que pertine à vocação. Quando analiso que em 1 Pedro está escrito: “Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus”, tenho a noção que a graça é dada de maneira variada. Até que ponto vai essa variação, não sei. Mas é variada. Portanto, parece também não se poder engessar, enformar os ministérios e as vocações, nem se vislumbra razoável a ideia de um “chamado” somente às áreas “profissionais” ou clericais.

A formatação vocacional tradicional gera alguns pesos demasiados e algumas mansidões exageradas também. Talvez a queixa comum de alguns pastores pelo extasiante trabalho que exercem seja causada pela demasiada responsabilização imposta por nosso histórico. Espera-se dele tarefas que não são suas. Parece que existe, espero que não, a esperança de se transferir as próprias responsabilidades para os profissionalizados. Mas na igreja há espaço para amadores? Ou quem sabe talvez haja um disfarçado deseja embutido de se transferir vocações e delegar responsabilidades para compensar os pró-labores. Uma impressão... Em verdade, o contracheque tem o fim de facilitar àqueles que exercem determinados misteres a fazê-los mais livremente, sem a competição de outras atividades externas. Não objetiva a transferência de responsabilidades, muito menos de vocação. Todos os vocacionados de tempo integral deveriam ser remunerados, não somente o pastor. Na igreja não se pode pagar dote como escusa para o desserviço.

O pastor tornou-se em alguns lugares “semi-deuses”, pois são responsáveis por quase tudo. Da limpeza do templo, passando por obras de engenharia até o zelo com a documentação e secretarização da igreja. Ele deve ser um ás da gerência, excelente pregador, exímio burocrata, supremo empreendedor, teólogo perfeito, e isso ainda é pouco para o que se espera dele. É exatamente por se esperar demais que muitos se decepcionam com o que recebem. Esperam ações divinas e encontram humanas, esperam perfeição, encontram falha, anseiam por respostas certeiras e encontram também dúvidas.

Por outro lado, o excessivo descanso, ou descaso, de alguns membros “normais” – para não dizer “bancais” – que não entenderam ainda o que seja vocação, fomenta ainda mais a necessidade de músculos nas costas dos “vocacionados”, capazes de levar a pesada cangalha dos labores não efetuados por quem deveria. Mas vocação não é sinônimo de ordenação, pregação e seminário. Aliás, seria pregar uma função do pastor ou do mestre? Ou de ambos? Não é verdade que muitos excelentes pregadores e professores deixam a desejar quando a questão é cuidar da pessoa individualmente? E não é verdade também que alguns que tem zelo individual intenso e cuidados específicos tomam choque ao pegar no microfone e falam coisas que nos arrepiam? Elucubrações...

Devido à disfunção em se exaltar determinadas vocações em detrimento de outras, há grande ocorrência de defeitos relacionados a sua individuação e auto-compreensão. São sem limites a ocorrência de erros relacionados à vocação. Muitos cristãos sérios e santos tendem a acreditar que sua consagração, amor a Deus e ao Reino, têm relação íntima com um chamado pastoral e/ou missionário. Deus chama homens santos para o ministério pastoral/ missionário e continuará fazendo, entretanto, tenho a impressão que homens e mulheres consagradas são requisitadas nos mais diversos setores da vida eclesiástica e social.

A boa função depende da boa unção. Sem dúvida, a função do pastor é nobre, contudo, isso não impede de acharmos também importantes outras vocações específicas. Para um “não pastor” o pastorado será desperdício, assim como um copo será inútil se desejar trabalhar como lâmpada ou a água como fogo. Mas para o vocacionado ao ministério pastoral, isso lhe cairá como luva e ai dele se não exercê-lo com amor e afinco. Ao passo que para o zelador da igreja, zelar por ela é sua glória, ai dele se não cuidar da limpeza dos banheiros e das instalações do prédio. Ele foi vocacionado para isso. Acredito que o chamado de Deus possa ser tão variado quanto as impressões digitais, até porque mesmo os membros da mesma vocação, a exercerão de maneira digital, pois não há pastores, há pastor, e este é irrepetível.

Se em 94, Taffarel estivesse no ataque e Romário debaixo de nossas próprias traves, voltaríamos de Pasedena sem que tivéssemos ido...

Comentários   

 
0 #1 Muito bomGuest 03-10-2012 10:59
Parabéns em Cristo pelo belo e rico texto, Luiz Tarquinho.

Embora em início de carreira, acredito que Deus também capacita os seus para misteres vocacionais paraeclesiásito cs, tal como na área jurídica, por exemplo, contanto que as respectivas atuações e decisões não se encontrem em sentido contrário à palavra.
 

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