PASTORADA MODERNIZADA (Luiz Tarquinio)

Nada melhor para dizer do que palavras, nada pior do que elas mesmas. Portanto, para evitar que trabalhem para o lado ruim, é bom esclarecer desde já. Uma coisa é boa ou má não por ser moderna ou de antanho. Nem toda novidade é verdade ou vaidade, nem o que é antigo, antiquado ou avalizado. A aversão do conteúdo por questões cronológicas é prática pouco saudável, pois em todo caso é preconceituosa.

Feita a necessária introdução, vamos aos pastores. Vivemos um tempo diferente na religiosidade evangélica no país. Passamos de perseguidos a respeitados. O crescimento evangélico nos diversos setores sociais incentivou, nalgum sentido, uma menor suspeita contra a comunidade cristã. Tal fato ocorreu historicamente concomitante à bancarrota marxista. Portanto, o novo-cristão, grande maioria do segmento, adentrou nos portais eclesiais portando a tiracolo as cartilhas filosóficas do capitalismo-individualista. A “Queda do Muro” facilitou não somente se passear mais livremente pela Germânia, mas também que transitasse mais manso no seio eclesiástico princípios básicos – não raro extremados – da filosofia vencedora. E impulsionados pelo que os filósofos chamam de zeitgeist, ou espírito do tempo, uma pregação misturada e metas eclesiásticas suspeitáveis tem sido recorrente nos discursos dos líderes religiosos modernos.

O Evangelho é proclamado liquidificado com as águas de um individualismo extremado por teólogos doutrinados mais pelo Tio Sam que pelas Escrituras, ensejando, assim, um evangelicalismo enamorado da pecúnia e magoada da coletividade, que insiste em gritar qual devoto: “Carpem Diem”, “Carpem Egos”, “Carpem Diem”, “Carpem Egos”.

Vivemos a era do empreendedorismo eclesiástico solo. Nomes têm tomado os lugares denominacionais. Se não é louvável fazer de um grupo o fundamento maior de nossa religiosidade, muito pior é colocar no seu lugar um só homem, com “h” minúsculo. Se fosse capitular não teria minha crítica. Esta tem sido a tendência contemporânea: trocar a coletividade pela individualidade. Mas certamente a eclesiologia que concede a um homem somente poderes absolutos é pior que a mais anárquicas das democracias, que espero não existam. Não é raro se ouvir acerca da igreja de “Sicrano” ou ministério de “Fulano de tal”. Aliás, nada mais comum nos nossos dias que avistar, nos pórticos de entrada de alguns templos, em lugar de símbolos cristãos, fotos dos líderes comunitários. Até entre os conservadores não é incomum se falar da igreja do pastor “tal”. Se a igreja é dele onde está a de Jesus? Entendo que nalguns casos tais expressões não querem dizer realmente o que dizem, sendo somente um “por assim dizer”, mas os inúmeros casos literais nos franzem a testa e ensejam as críticas.

Cresci numa época de heróis solitários. Seria minha geração discípula de tais heróis? Ou pior, seriam nossos pastores inspirados por eles? Figuras como o ator Silvester Stalone figuravam nos “longas” como “Rambo” e “Rocky Balboa”. Personagens distantes de grupos, seres descomunitarizados, que se viravam sozinhos, que ganhavam suas guerras sem o mister de outras mãos. Aliás, as outras mãos que visualizavam eram geralmente as dos inimigos. Os exemplos destes heróis solitários são inumeráveis. Quem não se recorda, por exemplo, do Super-Homem? Suas roupas azuis com capas vermelhas fizeram sucesso em todos os cantos. Entretanto, era também um homem solitário, que não contava com a ajuda de ninguém. Mas na vida é diferente, na Igreja mais ainda, não há homens de aço, o que existem, contudo, são fartas criptonitas a sugar forças solitárias, tragando ovelhas daltônicas que exergam suas brancas lãs pintadas de rubro e marinho.

Os tempos são esses e contra o perfil do tempo sempre é difícil lutar. Mas a dificuldade deve servir somente para incentivar a “boa briga”. Quem está acostumado a lutar contra as mais variadas turbas de demônios, não será derrotado por modismo qualquer. O fato é que imerso na cultura eclesiástica contemporânea, que foi beber de fontes seculares para fixação de metas, objetivos e aferimentos, líderes responsáveis estão se deixando levar mais pelos encantos das palmas de um mundo pagão e de público de duvidosa conversão que pelo Evangelho de Jesus Cristo. E por, muitas vezes, focar o que deveria ser cegado, querer o que deveria ser desquerido, olhar quando melhor seria antolhos, muita gente boa tem virado de ponta-a-cabeça princípios elementais do Evangelho, contaminando-se a si mesmo e levando consigo toda uma geração, que passou a ter uma ideia equivocada do norteamento eclesiástico mais apropriado. Incentivados por movimentos cujos objetivos são tão somente numéricos, cifráticos, orçamentários, que dão atenção ao Reino de Deus como políticos ao Ibope ou comerciantes aos clamores de clientes, pastores vão trocando seus alvos e ideias genuínos por outros mais industriais e contábeis. E mesmo sem acreditar completamente nalgumas teologias, muitos homens de Deus são, como por osmose, fomentados a desconfiar de si mesmo e do trabalho que realizam quando não cumprem os quesitos ditados por uma geração que trata pessoas por números e igreja como investimento. Mas gente não é gado nem igreja empresa.

Desta forma, pastores idôneos se podem frustrar facilmente ao ver ano após ano a igreja crescendo devagar, com poucos batismos e muitas desistências, quando há inúmeros discursos que juram promover uma “explosão” de convertidos, fazendo de uma pequena congregação uma mega igreja em poucos meses. Contudo, há pastores que as únicas multidões vistas são as que passam pela porta do templo onde servem indo receber a “benção” noutro lugar. Para estes pastores frustrados, “não modernos”, deixo a peroração mais pessoal possível abaixo
Deus não se esqueceu do seu relevante trabalho desempenhado no escuro, às escondida, e da maneira mais idônea. Onde holofotes não alcançam, Deus sempre se fez presente. O que ver melhor dispensa mais luzes, não requer claridade para avistar, não pede Ibope para assistir, não requer pódios e ovação para aplaudir. Não se furtou a observar o sermão de horas de oração, meditação e estudo, pregado algumas vezes a um auditório de meia dúzia camomilados. Deus viu todos os telefonemas dados aos ausentes, as repreensões nunca compreendidas pelos faltantes, que não raras vezes transferem suas insatisfações e problemas pessoais para você. Deus continua vendo os estudos bíblicos realizados a fim de homiziar os fiéis contra ventanias de doutrinas esquisitas e rasuradoras das Escrituras. Esteve sempre atento a cada “bem-vindo” aos visitantes, a cada ordem de culto preparada, cada digitação realizada, cada leito hospitalar aproximado, cada conselho ministrado, cada ofensa ignorada. Todas as flechadas recebidas pelos objetos do seu amor, cada olhar repreensor dos servidos foram contra o Senhor e não contra você. Deus não se esqueceu de observar as suas orações a confortar os inconsoláveis, nem do seu rosto largo de sorriso disciplinado, às vezes a disfarçar intensa dor interior, e que, ainda assim, trouxe paz, vida e consolo àqueles em abismos muito menores do que o seu, nem daquele abraço carinhoso alentador quando o que mais precisava de abraços era você. Deus continua vendo o amor revelado por meio dos ouvidos atentos ante os anseios verbais de homens de falas apressadas e incansáveis, que ás vezes o deixa tonto com palavras incompreendidas, inobstante os maiores esforços da concentração. Seu trabalho não é irrelevante, meu amigo, pois a régua utilizada por Deus é diametralmente diferente da usado pelos homens do seu tempo, e em Sua contabilidade não há primazia por números mas por almas, e uma delas bem cuidada, somente uma, vale mais que um aprisco lotado de ovelhas raquíticas e aos frangalhos, ou de bodes...
 

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