A IMPORTÂNCIA DA DOUTRINA (Luiz Tarquinio)

Um dos grandes desafios da igreja cristã sempre foi relacionado à manutenção da integridade da mensagem evangélica, preservando-a contra toda sorte de erros e falhas doutrinais, a fim de mantê-la incólume, pura, conforme ensinada por Jesus e seus apóstolos. O livro de atos nos ensina “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações.” (Atos 2:42). Todas as gerações necessitam desta santa perseverança para a manutenção dos ensinos bíblicos conforme legados pelos pais, pois somente assim verdadeiramente seremos uma igreja apostólica, responsável em repassar para o futuro o que aprendeu do passado. A repetição da essência dos ensinos inspirados é o que torna uma igreja verdadeiramente de linhagem apostólica. As outras formalidades são somente isso, um corpo sem alma, um copo sem água ou maçãs decorativas em belas bandejas de prata, que conquistam olhos, cativam vistas mas não deliciam a ninguém. São destas maçãs inúmeras a causa de um mundo faminto e cheio de uma confissão de fé incoerente a forjar uma espécie de cristianismo híbrido, meio cristão meio pagão, metade bíblico a outra apóstata. Uma mensagem perfeita não pode ser melhorada, qualquer retoque humano no divinamente belo só desconfigura. Mas quando se persevera em ensinar o que foi ensinado, preserva-se a sucessão apostólica de verdade e não pró-forme.

Ao escrever a Timóteo, disse Paulo:

“Quando eu estava de viagem, rumo da Macedônia, te roguei permanecesses ainda em Éfeso para admoestares a certas pessoas, a fim de que não ensinem outra doutrina,” (1 Timóteo: 1.3)
 “impuros, sodomitas, raptores de homens, mentirosos, perjuros e para tudo quanto se opõe à sã doutrina,” (1 Timóteo 1.10) 
 “Expondo estas coisas aos irmãos, serás bom ministro de Cristo Jesus, alimentado com as palavras da fé e da boa doutrina que tens seguido.” (1 Timóteo 4.6) 
 “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Continua nestes deveres; porque, fazendo assim, salvarás tanto a ti mesmo como aos teus ouvintes.” (1 Timóteo 4.16)

 
Ao analisar o Novo Testamento, muitos não se dão conta das variadas exortações acerca da necessidade de uma boa doutrina. Ou seja, de um ensino que realmente ministre com a devida inteireza os fundamentos da mensagem cristã, sinalizando claramente a vontade de Deus. A noção da preservação da mensagem com o maior grau de pureza nos tem deixado. Em vez disso, muitos estão a enveredar por caminhos muito bem elaborados, racionalmente fantásticos, criticamente suntuosos e razoáveis, mas que não são ensinados nos Evangelhos.

Há tentações e intrusos nas mais diversas áreas do cristianismo. E como o ensino é um dos setores de grande importância, os ataques aqui não são menos impactantes. Alguns deles são menos danosos na medida em que as cores inimigas são facilmente detectáveis, ficando clara a ação do mal na espécie. As ideias são tão solarmente tortuosas que não se parecem em nada com os ensinamentos do Maestro. Para tais, não vou gastar teclas, pois nunca será necessário. Erros gritantes são sempre frutos das mentes humanas, Satanás não se relaciona com eles, pois os abomina. Cada demônio é chamado para fantasma, e aquele que trabalha sem disfarce, vestido com as próprias fardas, portando estandartes da sua pátria é repreendido incontinente pelo senhor deles, mimetista maior.

Outras investidas, contudo, carregam a marca privilegiada da boa camuflagem, a ardilosidade e artifícios são tamanhos que podem iludir e enganar até mesmo grandes santos por algum tempo. E assim como o erro de um grau leva uma aeronave para país diferente do destino exato, pequenas falhas costumam fazer o mesmo. A marca do Mal, desde o Éden, é o disfarce. E a semelhança, sua mais eficiente baioneta. A pior das heresias costuma buscar validade na Bíblia. É o olho clínico recheado de luz do Espírito que contesta e confronta algumas dessas falsificações, com muito mais Bíblia, com toda ela.

Vou elencar uma dupla de enganos pequeninos que podem pôr a perder o trabalho de muitas gerações de amantes das Escrituras.

O primeiro deles diz respeito à falsa ideia de que Jesus viera para estabelecer exclusivamente uma nova moralidade, que, se praticada, abrirá os portais dos céus aos obedientes. Uma noção de que ações morais e eticamente corretas bastam para que o Evangelho seja vivido em integralidade plena e de que as palavras de Jesus se destinaram limitadamente a forjar um corpo de comandos legais que suplantaram Moisés por um conjunto de outras disposições não legalmente hebraístas, mas da moral e ética ocidentais. A consequência prática da adoção de tais conceitos – às vezes explícito, geralmente não conscientizado – é uma vida baseada fundamentalmente nas ações, nas melhores delas, como se isso bastasse para determinar o padrão de um seguidor de Jesus. Tais ações pretendem ser as expiações e holocaustos que conduzem ou afastam os adoradores de Deus. No rigor mais estrito, terminam eliminando o sacrifício de Jesus muito bem elaboradamente, transferindo para as obras, não mais fundamentadas nas letras mosaicas, mas na nova moralidade. Discurso do tipo: “o importante é somente fazer o bem”, tem levado muitos bons homens para o inferno. Se atitudes e comportamentos pudessem salvar alguém, todos estaríamos perdidos. Na verdade somente pode haver um Nome a nos aproximar ou afastar eternamente da presença de Deus: Jesus Cristo. Em Atos os apóstolos há uma experiência interessante:

 “À vista disto, Pedro se dirigiu ao povo, dizendo: Israelitas, por que vos maravilhais disto ou por que fitais os olhos em nós como se pelo nosso próprio poder ou piedade o tivéssemos feito andar? O Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, o Deus de nossos pais, glorificou a seu Servo Jesus, a quem vós traístes e negastes perante Pilatos, quando este havia decidido soltá-lo. Vós, porém, negastes o Santo e o Justo e pedistes que vos concedessem um homicida. Dessarte, matastes o Autor da vida, a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, do que nós somos testemunhas. Pela fé em o nome de Jesus, é que esse mesmo nome fortaleceu a este homem que agora vedes e reconheceis; sim, a fé que vem por meio de Jesus deu a este saúde perfeita na presença de todos vós.”(Atos  3.12-16)

Ora, não foi pela devoção a Deus, nem pelo fiel seguimento de uma moralidade estabelecida que o milagre tomou lugar. Não, foi pela fé... Nenhuma ação pode nos levar para mais perto do que já estamos do Pai, se estivermos de fato com Ele. O erro, às vezes, é tão sutil que nos pegamos autoconfiantes diante de Deus quando estamos agindo bem e meio receosos quando dos tropeços. Não seria isso, na verdade, um aproximar por obras? Não seria essa uma teologia das obras? Não seria tal pensamento um erro que precisa ser combatido? Ora, se são nossas ações que nos aproximam ou afastam de Deus, estamos no caminho das obras, e nestas trilhas não encontraremos bons destinos. Cada obreiro que idolatra as obras é um adorador das próprias forças. E a santidade? É o inconciliável rastro da salvação, nunca o seu fundamento, é o cheiro da flor de vida avermelhada, banhada, aspergida pelo Sangue. A carência de aroma e beleza fará de qualquer rosa uma farsa, botão ilegítimo encontrado nos sítios das meras confissões burocráticas, declaradamente morta pela inexistência de odores.

Não podemos esquivar, contudo, da reclamação justa de serem tais expressões conhecidas de todos. De fato, em tese, mas a maioria a experimenta de uma modo bastante tímido, quase esquecido, vivenciando o fato como quem encontra um tesouro e o joga fora pois lhe parece improvável ninguém tê-lo achado antes. “Laranja madura...”. A questão é que na estrada do Evangelho isso é possível. Há temas que temo restringir-se para alguns ao mundo dos pensamentos como um “faz-de-conta”. Mas Evangelho não é romance ou novela, embora muitos queiram Shakespearizar apóstolos. Há ideias tão conhecidas que parecem ignoradas, tão discursadas que parecem caladas da prática dos conhecedores, quase inexistentes. Às vezes, crê-se na salvação pela fé como quem acredita em dinossauros: no fundo, em dúvidas. Não raras vezes, encontramos pessoas que creem na fé nominalmente, religiosamente, mas a prática insiste em esbofetear suas confissões, o temor vence a segurança, a morte sobrepuja a vida, o pânico derrota o amor, a lei faz careta acovardando a graça.

A fé tem duas filhas: a primeira é determinada e eficiente, confiante, perseverante, de nariz empinado, julgadora, perfeccionista, competitiva, independe, sonha em salvar-se, teme a rejeição, quer agradar escondendo de si e de todos as vilezas inexoráveis, não sabe ter sido adotada. Seu nome é Obrada. A segunda é filha fraca, frágil, doente, humilde, sofre de dores, faz o trabalho em completa dependência e paz, contenta-se com pouco ou muito, contanto que faça o seu melhor, não é empreiteira, é diarista, a cabeça é caída por tê-la privilegiada, o nariz cheira o peito por saber-se incapaz, sua miséria oportuniza ver milagres, sua incapacidade, a mão operosa de Deus, ama servir, doar, amar, mas sabe ser ela mesma a maior servida, donatária e amada; gosta das obras, ama a fé, faz as obras, confia na fé, acredita nas obras, mas vive como se elas mesmas não fossem capazes de conduzi-la a um milímetro para mais perto de Deus, sabe que Jesus a catapultou de vez nos Seus braços, ou melhor, catapultou-se a Si mesmo dentro dela. Seu nome completo é: Obreira Verdadeira Santa de Jesus. Obrada é filha ingrata que não respeita a mãe, quer tirar-lhe a filiação maternal, sentar-se no seu trono, roubar-lhe a coroa, ter poderes, para talvez com isso matar de novo, furtivamente, o Rei dos reis, diminuindo o volume dos gritos do calvário, anestesiando a dor dos pregos, desderramando o sangue, apagando o mérito de Jesus ao incinerar a justificação pela fé.

Alguns creem tão apaticamente que a fé pergunta: “Onde estou?” Se fosse pelas obras, o céu estaria cheio de orgulho, vaidade, um local de fortes, mas é exatamente o contrário. No céu todos os músculos são flácidos, com a sabida exceção. Contudo, o que impede os discursos pueris e vãos, o que evita as rezas confessionais serão sempre os naturais rastros deixados por discípulos no caminho.  A fé verdadeira é mãe das obras, fé estéril é mãe nunca enxertada: falácia. Foi para a passagem livre de ares nos pulmões aliviados e para forjar corações batendo em ritmos adequados, para distanciar respirações ofegantes, peitos amendrontados, asma da alma que o Senhor nos salvou. A permanência no medo é o maior de todos os contra sensos evangélicos, o receio da rejeição apaga de Deus paternidade.

Outro erro bem peculiar e muito bem fundamento é o que vamos chamar de “primazia de Cristo”. Advogados não faltam para defender que todo o Evangelho ensina somente que é necessário crer em Jesus e isso é o suficiente. Quase o oposto da primeira falha. O diabo não se importa se o erro é caminhar demais para o sul ou muito para o norte, seu alvo é o caminho inexato. A metodologia não importa, está focado nos resultados. No primeiro momento, a confissão da “primazia de Cristo” pode parecer limpa e bastante ortodoxa. É um erro ou uma santa confissão? Os dois... O que vai diferenciar ambos são as palavras que acompanham a declaração.  Como o foco é erro, vamos lá... Se depois da exposição do tema, prega-se que as questões de doutrinas, ensino e práticas não têm importância, bastando que se creia, acredito saber onde quer chegar: antinomismo. É claro, com os refinamentos peculiares de cada geração. Estão errados. Na verdade, são os músculos das obras que ratificam os ditos, que os fazem transcender de meras palavras para a concreta e real definição. É certo que alguns anabolizantes também podem disfarçar por algum tempo a fineza e fragilidade muscular, mas as horas seguintes provarão que a fala mansa, o olhar piedoso, as togas eclesiásticas, o enxerto do Livro ao corpo, as esmolas solidárias foram somente frutos de dopping.

Não há dúvida que o fundamento da Nova Aliança é que Jesus veio ao mundo para salvar pecadores. Isso é um fato. Mas juntamente com isso, junta-se uma série de conceitos, definições e ações mister sejam bem compreendidas, pena de se negar a própria mensagem maior da Primazia de Cristo. Se se fizer uma pesquisa no Brasil e perguntar se as pessoas creem em Jesus, a maioria esmagadora da população dirá que sim. Aliás, se tais discursos fossem “de fé”, estaríamos abaixo do equador quase que acima no céu, pois quase todo mundo crê, mas não é necessário profundidade para entender que discursos não passam de si mesmos e que o tira-teima da fé é a anuência de se viver conforme se crê. Portanto, não se razoabiliza para mim uma ideia de cristianismo marginalizador da doutrina. Aliás, muitas foram as lutas de Paulo contra os judaizantes, porque estavam deturpando a doutrina, apesar de crerem em Jesus. Criam mas sem o entendimento mais correto. Na mesma linha, estavam os gnósticos, que deram tanto trabalho a João. Eles também criam em Jesus, mas como um ser fantasmal, sem carne. O que nos impele ao doutrinamento mais correto, é a ideia da importância das Escrituras para a fundamentação dos nossos princípios elementares de fé. Mas se não dermos valor ao Livro, como poderemos falar em santidade? Ou demônios? Ou vocação? Ou justificação? Ou dons? Ou Igreja? Ou Comunhão? Ou tentação? Ou batismo? Ou Santa Ceia? Ou cruz? Ou Bíblia? Se não se dá valor aos ensinos da Palavra de Deus, restringindo-a a mera noção de que Jesus salva o que crê e isso basta, ter-se-á, assim, entrado num caminho antinomista por demais grave e perigoso, que muito se assemelha àquela mesma fé dos demônios ou dos pagãos “convertidos” não pelo Espírito mas pela cultura do formalismo religioso.

Nos tempos digitais, temos doutrinas várias que somente serão corretamente impugnadas mediante absorção coerente do sumo pedagógico bíblico. Somente assim poder-se-á admoestar os espíritas, por exemplo, que são declaradamente cristãos ou dos enormes movimentos erráticos da atualidade. Não dando o valor devido ao ensino bíblico, negligenciando o “corpus escripturisticus”, abri-se a porta para a entrada de convidados indesejados ao bom rumo do cristianismo.

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