NÃO TEMO A SOLIDÃO (Luiz Tarquinio)

Não temo a solidão, o quarto escuro, o lugar escondido, isolado ou separado. Não me amedrontam em nada os tempos de andar sozinho, sem vizinho ou alguém a compartilhar paixões. Não temo a solidão. Se o encontro se dá ao volante, pareço mais bem acompanhado do que antes, ao tempo da melhor companhia; e do banco vazio animados sons brotam do silêncio, microfone de Deus; mas se em casa é a reunião agendada, o quarto parece mais repleto de vozes do que em tempo de multidão de palavras, das paredes brotam imagens, do teto energia cálida, da televisão desligada falas indizíveis e puras, vejo Deus até em sapatos.

Mesmo que a ninguém tenha ou de ninguém seja, ainda que ao lado não se encoste alma amada, entes queridos, amigos fidelizados, disso nem posso queixar-me. É no refúgio das reuniões animadas, trancado das palavras exageradas, surdo dos volumes amplificados, que mais bem falamos e melhor ouvimos. Solidão é tempo de festa, animadas conversas e boas companhias, santo encontro. O som do silêncio atrai o Verbo, no calado a melhor voz se torna audível, ecoando sons que se intimidam no trânsito dos maiores ruídos. E neste retiro, o singular se pluraliza melhor no meio destas magníficas amizades, neste tempo que parece não passar pela alegria desta solidão, ima de Deus.

De que pode queixar-se o solitário senão da carência da companhia. Pois quando a temos deixamos de não ter uma para sempre. Pluralizamo-nos incontinente. Sozinhos continuamos muito bem acompanhados.  Não podem os dedos queixar-se de estarem sós, não pode a areia reclamar, não podem as nuvens blasfemar, não são capazes as estrelas de falar bobagens, não são dignas as andorinhas de levantar pios de lástimas, não podem as gaivotadas de pares aos milhares lamentar-se, como poderá um homem de Deus sentir-se só? De todos os parceiros, prefiro Divindades.

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