ORAÇÃO (Luiz Tarquinio)

Abracei meu filho à revelia completa de sua agitada vontade de três anos de idade, não resisti... Fui seduzido por meu amor pegajoso ansioso por contato físico. Mesmo contra o desejo de ser abraçado, segurei firme seus braços que se torciam para fugir de mim, e num ato ditador forcei meu rosto por entre seus cabelos, pescoço e nuca, e dei-lhe não sei bem se um beijo ou um cheiro ou os dois num mesmo ensejo. Meu pulmão então se encheu de aromas de três anos, uma mistura de sabonete, suor e filho. Neste momento, suas reclamações se transformaram em risos, não de satisfação é verdade, de cócegas... Disfarcei e, para mim mentindo, forcei a pensar que estivesse a gostar do meu abraço, para, então, inspirar ainda mais profundamente aquele cheiro de cangote de misturas já ditas. Neste momento, senti nos ouvidos os volumes das mais altas reclamações rebentas. A democracia venceu o imperador. Contudo, não me dei por derrotado. Entrei no jogo para tentar dar-lhe o troco. Minha estratégia para continuar com ele agarrado nos braços por mais 18 segundos foi perguntar qual presente gostaria de receber naquele dia, o que lhe daria mais alegria. Vi toda a agitação fugidia e desconcentrada se transformar em introspecção e calma incontinenti; os olhos se firmaram, a intranquilidade aquietou-se, o desejo de sair correndo dos meus braços se converteu, atenção completa. Ganhei poucas vezes tanta atenção daquela criança. Passaram os 18 segundos, alguns minutos até ganhei, e, enquanto ele pedia o que queria, deliciava-me com sua pele grudada na minha, sua cabeça no meu ombro encostada em dengos de amor de pai. E com seu calor esquentei meu coração. Ao fim de suas petições vazias para mim, cheias de carrinhos, quebra-cabeças, bonecos e espadas, eu acho, já tinha conseguido aquilo que desejara, e como numa excelente permuta, no melhor dos negócios, os dois nos sentimos vitoriosos: eu com sua presença milesimal, infinita para mim, ele com seus pedidos de presentes, que na verdade são quase que impertinentes para mim, pois sei do que gosta, antes mesmo que me peça. O que eu quero é o abraço, a atenção, o pescoço suado do filho amado...

Desta experiência insólita, não pude evadir do pensamento outros olhares. Não mais em direção ao descendente, mas ao que alteia o horizonte, não mais em querer abraçar, mas ser a caça, não mais em perseguir odores, ser perfume para outro nariz. Esquecendo um amor, permaneci com olhos noutro, olvidei o filho para relembrar que tenho Pai também, nisto sou colega de minha criança. Entre especulações, natureza e Bíblia, percebi, assim, conquanto mal comparando, que os estratagemas por mim utilizados talvez tenham sido gerados muito antes de minhas ideias a partir de um protótipo celestial. E disto tudo aprendi, que em vez das nossas muitas palavras, talvez Deus procure mais pescoços e nucas, em vez de receber somente pedidos, talvez deseje mais atenção, em vez de esforços, conquistas, vitórias e ações talvez nos quisesse somente Maria e de nós mais oração.

Mas o que é oração? De todos os conhecidos meios de graça, a oração está impregnada de um tempero especial. É instrumento que nos permite comunicação com Deus, por meio de linhas posteadas pela fé. A cruz rasgou o véu do isolamento e da solidão que obstaculizava o contato direto com o Deus sagrado, agora completamente acessível a quem O procure de verdade. A oração torna o ouvido de Deus disponível. Ouso dizer, não somente a audição é possível, mas também a boca. Sim, pois oração não é monólogo, mas diálogo. Bem verdade que da boca divina não costumam sair tantos sons, muito mais paz e gestos claros distantes de palavreados. Geralmente, Deus fala em dissonâncias mudas, que costuma confundir os crentes na razão, os adoradores dos formatos e os que precisam de explicação. Não espere sons, há muito mais... O quarto escuro brilhará e do silêncio brotará vozes geralmente não escutadas pelos criados na sonoridade, e dos nossos lábios surgirão pensamentos escondidos e não falados àqueles que usam palavras ditas em sons; também verberarão ruídos, de alguns, certamente somente compreendidos nos céus e aos anjos; em contrapartida nosso peito se transformará em ouvidos, o tórax quase que virará cérebro decodificando sensações altíssimas, numa metamorfose transcendental. Orar também é isso. Oração não é somente para pedintes, é outrossim para amantes, é mais relacionamento que supermercado, mais amizade e menos interesse, meio de nutrirmos relação com o Pai. Um carro, uma saúde, uma cura; uma casa, um emprego, uma namorada; um futuro, uma vida, ou até carniça são filhos gestados de muitas orações. Um colo, um agrado, um beijo; um abraço, um enlaço, um cheiro; uma dança, uma risada, um peito é tão raro que Deus deve se perguntar se nos sentimos realmente filhos...

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