CONFISSÕES DO ORATÓRIO (Luiz Tarquinio)

Não consigo orar com pressa...!!!
Sem pressa é ainda melhor se o lugar está vazio,
ou há quarto de trancas contra crianças, mas
se na combinação se ajunta a negligência mais santa
de um celular desligado ou de energia esvaziado,
a oração se faz deliciosa.

Nos dias agitados,
Luta maior não há
que aproximar-se dela.
Ajoelhar é subir ladeira, muito mais pelo
relógio a nos ferir com seus acelerados
ponteiros de ansiedade, dígitos incansáveis,
que sonham nos subjugar a alma,
roubando, matando, desnutrindo-a,
por meio de regradas rações
de contemplação em migalhas,
balanceada com as pobres calorias
dos compromissos inadiáveis.
A oração tem família, Pai e mãe,
o sêmen veio da fé, o óvulo da disciplina.
Mas na eterna luta do ser humano redimido
contra o vetor sul tatuado em cada carne por ela mesma,
aceito o desafio e subo no ringue contra o tempo

Chá preparado, sentado ou deitado,
deleito-me em conversas.
Conversar a sós é para mim ideal,
Porque realmente quem fala sou eu, e nu,
desvestido das roupas protocolares
das posturas, dos tons, das palavras
de alturas,
sem clichês e floreamentos típicos
das orações públicas, que despersonificam
a fala ao verberar repetições
das rezas mais enraizadas,
tão corretamente combatidas,
tão erradamente praticadas
por nossas inerentes hipocrisias.
Entendo a burocracia,
mas a oração feita por mim mesmo
no quarto escuro é melhor
que a proferida pelo pastor
diante de toda luz do púlpito.

Na oração declaro sozinho amor sem música,
Nos dias mais animados, com pouca – meu amor não é expresso
em  notas ou ritmos.
Cada um encontre a melhor forma de adorar,
seja com sons, palavras,
ritmos, danças, ou nada disso.
Nada disso está nas minhas entranhas,
gravado sobre o rim,
e Deus nunca se queixou.
Não que seja eu um “sem melodia”,
É o pensamento de nunca ter cantado para amores
que me faz desconfiar que algumas músicas não procedem
das vibrações mais puras e sinceras da minha alma.

Boa oração é em parceria com
o Livro indomável, de conteúdo
deslumbrante e intrigante.
Aceito o aceitável facilmente,
Para o esquisito, tenho a fé.
Orar com o Livro é melhor,
facilita comunicação.
E por entre conversas partidas,
E leituras cortadas,
Alternando entre pensamentos e falas,
letras e significados,
mantenho comunhão
com o Incomensurável.
Ligação incompleta por ainda vê-lo
a partir de mim mesmo,
e destas ridículas retinas
que se arriscam em contemplá-lO,
que se arvoram em defini-Lo.
E nesta falta da melhor oração,
faço a possível, a humana, a medíocre,
elevando-me às alturas e sucumbindo no mesmo
instante à impressionante pressão
de boletos do vencimento.


Oração boa é jantar de gala,
Não há banquetes de cinco minutos.
Oração não é retalho, pedaço,
centavo ou troco.
Querem fazer do banquete lanche.
Mas se tudo é parte, ela é inteiro.
Deste orgulho não se furtará
Nem lhe será imposta culpa.
Oração monossilábica é para os
entediados de Deus,
para quem não O suporta,
mas desejam somente o suporte
de suas mãos, a provisão, a salvação,
mas nem de longe, sequer de leve,
nem mesmo suave, de relance,
triscam de coração no Seu.

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