A SEPARAÇÃO ENTRE IGREJA E ESTADO, UM PRINCÍPIO DISTINTIVO DOS BATISTAS (Sylvio Macri)

alt
Com base no ensino de Jesus em Mateus 22.15-22, cremos haver uma distinção entre Igreja e Estado, que chamamos de princípio da separação entre a Igreja e o Estado. Entretanto, a compreensão e a aplicação desse princípio enfrenta duas grandes dificuldades: a primeira é que no ambiente da Bíblia não vemos esta distinção. Tanto Israel como os povos que com ele interagiam eram nações hierocráticas, em que o poder político era uma derivação natural da revelação divina e à luz dela devia ser exercido e julgado. Não havia separação entre religião e Estado. É grande o abismo sócio-político entre nós e os tempos bíblicos, e isso contamina nossa hermenêutica. Assim, continuamos a repetir “Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor”.

A segunda dificuldade é que na fronteira das relações entre a Igreja e o Estado há zonas “cinzentas”, com justaposição de interesses e grande potencial de conflito. “A igreja concebe a si mesma como ‘unidade dialética’ de um ser ao mesmo tempo transcendente ‘espiritual’ e imanente ‘profano’. Seu paradoxo está em ser simultaneamente histórica e escatológica, espiritual e externa, divina e humana, social e, não obstante, transbordando e transcendendo todas as estruturas sociais e históricas do mundo.” (Joachim Matthes, Introdución a la Sociologia de la Religión, vol II, p.197). A secularização ou laicização crescente do Estado levou-o a regulamentar (alguns diriam “invadir”) áreas da vida do cidadão antes reservadas ao domínio da religião, como as relações familiares. Nas nações ocidentais, cuja cultura é formatada pela tradição judaico-cristã, este é um sério problema. É real a tensão entre sermos cidadãos do Estado e cidadãos do Reino de Deus.

Nos primeiros três séculos de vida da Igreja, sua separação do Estado estava claramente delineada, pela simples razão de que ela estava em oposição a César, isto é, sua fé não era a fé do Império Romano. Mas, à medida que as duas “fés” passaram a se identificar, o que era de Cristo passou a ser de César, e vice-versa. Voltamos a ter o Estado hierocrático que Jesus quis abolir. A igreja, então, mergulhou lentamente num processo de promiscuidade abjeta com o poder temporal, durante a chamada “Idade das Trevas”, que terminou somente com o Renascimento e a Reforma Protestante. Esta teve um vertente principal, que produziu o luteranismo, os reformados, o anglicanismo e outros, e uma vertente secundária, a Reforma Radical, que produziu diversos grupos anabatistas e separatistas. Infelizmente, a corrente principal da Reforma perpetuou o Estado hierocrático, com o que redesenhou-se a Europa, que se dividiu em Estados católicos e protestantes.

O moderno princípio da separação entre Igreja e Estado surgiu no seio da Reforma Radical, que o derivou do seu conceito de fé e igreja. Fé é algo que se exerce por decisão pessoal, voluntária e conscientemente. O batismo infantil não tem nenhum valor para a salvação, que é uma obra da graça de Cristo e precisa ser aceita por uma pessoa em condições de fazê-lo. Igreja é a comunidade dos regenerados, que a ela se unem voluntariamente, sob a única condição de professarem a fé e serem batizados, com a finalidade de cultuar a Deus, amar e servir uns aos outros e exercer mútua edificação e disciplina. Nenhum cidadão torna-se cristão por nascer de pais “cristãos” numa nação “cristã”, mas por aceitar livremente a Cristo e unir-se voluntariamente a uma igreja local. Não há nação cristã, mas igrejas cristãs ou povo cristão. O Estado é uma coisa, a Igreja é outra, e o cidadão tem liberdade de crer ou não. Isto é radicalmente diferente do que pensavam Lutero, Calvino, Zuínglio, João Knox e outros, e, é óbvio, levaria à perseguição. Os radicais pagaram caro por suas convicções.

Os batistas, surgidos décadas mais tarde neste cenário, são, quanto a este princípio, herdeiros da Reforma Radical, e não da corrente principal. John Smyth e Thomas Helwys, líderes co-fundadores da primeira igreja batista de que se tem notícia, defenderam a liberdade religiosa em seus escritos de 1611/1612 (Zaqueu Moreira de Oliveira, Um Povo Chamado Batista – História e Princípios, Recife, 2010, pp. 55/56). Um pouco depois, na América, Roger Williams e John Clarke, banidos da colônia de Massachussetts Bay, onde os congregacionais eram a igreja oficial, fundaram o primeiro território do mundo onde se praticou a liberdade religiosa, a Colônia de Rhode Island. Em 1644, Williams escreveu “The bloody tenent of persecution” (O princípio sangrento da perseguição), defendendo a separação entre Igreja e Estado ( Zaqueu Moreira de Oliveira, idem, p.78).

Batistas como John Leland (1754-1841) influenciaram diretamente os pais da Revolução Americana a incluir na Constituição as dez emendas conhecidas como Declaração dos Direitos (1789), das quais a primeira diz: ”O Congresso não emitirá qualquer lei aprovando religião oficial ou proibindo o livre exercício da religião.” Sobre ele Zaqueu Moreira de Oliveira diz o seguinte: “Leland foi o mais proeminente pregador batista em Virginia, no período da Revolução. Dentre vários outros escritos sobre liberdade religiosa, João Leland afirmou: ‘A coisa mais importante em minha vida é salvar almas. O solo mais fértil no qual almas podem ser atraídas para Cristo é o solo da liberdade religiosa. Quando homens são livres para crer ou não crer, eles podem livremente aceitar e viver o amor de Deus. Mas quando o Estado tenta ajudar a religião, ele inevitavelmente controla a prática religiosa e destrói a resposta livre do povo, pelo que poucas almas são salvas.” (Um Povo Chamado Batista, p.84).

Conhecidos teólogos batistas americanos, como Strong e Mullins, que influenciaram a formação teológica dos batistas brasileiros, defenderam claramente este princípio: “As leis de Cristo, segundo as quais os crentes unem-se em igrejas, podem ser resumidas da seguinte maneira: (....) a liberdade da consciência do indivíduo e a total independência entre a Igreja e o Estado.” (Augustus Hopkins Strong, Teologia Sistemática, Vol II, p.639); “O Novo Testamento condena qualquer tentativa de subjugar a igreja a uma outra ou a um conjunto de igrejas, ou tornar a Igreja uma criatura do Estado. A liberdade absoluta da consciência subjugada a Cristo tem sido sempre um princípio dos batistas e do Novo Testamento.” (idem, ibidem, p.651). Entre os princípios batistas, Mullins citou “O axioma moral: O homem, para ser responsável, deve ser livre.”, e “O axioma religioso-cívico: Uma Igreja livre num Estado livre.” (E. Y. Mullins, Os Axiomas da Religião, p.82). Referindo-se a eles, Mullins diz: “Tanto do seu lado político como do seu lado religioso, a doutrina da separação da Igreja e do Estado tem toda a razão de ser. A liberdade civil e a liberdade da alma proíbem por igual a sua união.” (idem, ibidem, p.189).

Entretanto, trata-se de um princípio frágil (veja Walter B. Shurden, The Baptist Identity – Four Fragile Freedoms), pois sofre bombardeio constante, por um lado daqueles que não são herdeiros da tradição radical/batista, e por outro lado, dos que, mesmo sendo dela herdeiros, renegam-na ou ignoram-na. Em ambos os casos, creio que a causa é o estranho saudosismo da teocracia do Antigo Testamento e o desejo liberticida de impor seus itens de fé a todos os demais seres humanos. Como dizia Roger Williams “cristianização não faz cristãos” (título de um livro sem menção do autor, mas atribuído a Williams, segundo Zaqueu Moreira de Oliveira, Um Povo Chamado Batista, p.79). No início de 2010, o Conselho Estadual de Educação do Estado do Texas, EUA, dominado por evangélicos fundamentalistas (entre eles, batistas), resolveu retirar dos livros textos de História autorizados a menção à luta histórica dos batistas e outros americanos pela separação entre Igreja e Estado, por entenderem que as crianças precisam aprender que os EUA são “uma nação cristã”. No Brasil constatamos o mesmo discurso. Por isso, torna-se urgente difundir, estudar e enfatizar profundamente nas igrejas, associações e convenções, a nossa história e os grandes princípios batistas, razão da nossa existência como denominação. Honremos nossa herança histórica, ou renunciemos ao nome “batista”.
 

Comentários   

 
0 #3 A SEPARAÇÃO ENTRE IGREJA E ESTADO, UM PRINCÍPIO DISTINTIVO DOS BATISTAS (Sylvio Macri)Paulo Nicolas 30-04-2017 22:34
Eu não seі se seria só comigo ou se alguém encontrou algum problema сom seu site.

Parece comߋ sе quе alǥᥙns dos textos escritos dentго do sеu conteúɗo está aparecendo fⲟra dа tela.
Podᥱ outra pessoa por favor dar um feedback рara eu sabеr se isso еstá acontecendo
só comigo. Isso pode sеr um problema ϲom meu navegador ɗa internet, eu vi acontecer a
mesma coisa ϲom outro blog outro dia. Grato!

Meս рágina ... projeto de pesquisa (Maria Clara: http://Www.armazemdoebook.com.br/)
 
 
0 #2 Principios moraisEduardo Martins 21-04-2015 18:29
Como fica, neste contexto, a luta de grupos cristãos pela preservação de princípios morais bíblicos na sociedade? Concordo com a separação total entre a igreja e o Estado. No entanto, os cristãos são membros da sociedade e deveriam influir nos seus caminhos. Considerando que muitas vezes existe uma linha tênue entre influenciar a sociedade por meio de leis e princípios, e se envolver como igreja nas questões do Estado, qual deveria ser o posicionamento de cristãos e líderes em debates morais da atualidade?
 
 
0 #1 Principios esquecidosGuest 01-06-2013 10:43
é lamentável como esses princípios tem ficado de lado na grande maioria das igrejas batistas.

Gostei muito do artigo.

Deus te abençoe
 

Adicionar comentário

Código de segurança
Atualizar