O NATAL DE SIMON (Ubirajara de Oliveira)

CENA 1

Ambiente sombrio. Um homem surge em cena. Ele escreve uma carta.

Voz de Simon – Este relato tem como maior objetivo falar de um momento que vivi e que mudou a minha vida. Vida esta até então movida pela religiosidade, ódio e desejo de vingança. Foi numa noite, véspera de Natal, no ano de 1943, auge da Segunda Grande Guerra. Não me prenderei a detalhes, mas somente ao relato que começa numa sala de um velho hospital, local em que servia como prisioneiro dos nazistas depois de ter sido separado da minha família.

Simon entra acompanhado de um homem truculento, que grita:

Homem – Vamos, judeu imundo! (Empurra Simon, que cai) Veja bem esta sujeira. Este é o seu presente de Natal. Limpe tudo! (O homem empurra a cabeça de Simon com o pé) Tudo!

O homem sai rindo...

Simon levanta com certa dificuldade. Pega a vassoura, olha em volta.

Voz de Simon – Um ano sem ver meus familiares. Um ano sem notícias. Prisioneiro. Tratado com crueldade. Já não esperava o socorro divino do Deus dos meus pais. Só pensava como seria a minha vingança.

Simon segue limpando o chão em silêncio. Ouve-se um ruído de um sino.

Simon – Hoje é o tal Natal. Comemoram o nascimento de Jesus Cristo. Como podem? Comemorar a data de um judeu e depois exterminar tantos outros? Que sentido de vida pode massacrar homens, mulheres e crianças sem piedade e depois celebrar um nascimento?

Simon tira do bolso uma velha fotografia. Olha com ternura.

Simon – Onde está você, mamãe? E você, papai?

Ouve-se uma melodia triste, enquanto Simon abraça a fotografia. Ele chora e dança, enquanto sons de tiros soam pelo ambiente. Uma mulher entra na cena. Simon se assusta. Ela olha diretamente pra ele e pergunta:

Mulher – Você é judeu?

Simon, ainda assustado, responde:

Simon – Sim...

Mulher – Me acompanhe!
Ele reluta...
Mulher – Venha! Rápido! (Ela sai, Simon acompanha).

CENA 2

Eles chegam num local sombrio. A Mulher para e aponta para um homem sentado numa cadeira de costas para a cena.

Ouve-se uma voz:

- Trouxe-o?

A mulher responde:

- Sim!

- Pode nos deixar a sós?

A mulher sai da cena.

O homem ainda de costas, pergunta:

- Você é judeu?

Simon – Sim...

O homem se vira. Olha diretamente para Simon. Ele está fardado e na lapela do casaco traz o símbolo da SS. Está com uma das pernas enfaixada.

Simon olha com ódio.

O homem interrompe o silêncio:

Homem – Sinto o seu ódio. Seu olhar fala alto rapaz...

Simon permanece em silêncio, olhando diretamente para o homem.

Homem – Não poderia ser diferente. Por isso te trouxe aqui.

Simon, responde com dificuldade:

Simon – O que você quer comigo?

Homem – Uma proposta

Simon – Proposta?

Homem – Sim.

Simon se mostra surpreso... O homem segue falando:

Homem – Sou um Militar condecorado. Chefe do destacamento militar deste hospital. Antes quero que saiba que aconteça o que acontecer, você está livre!
Simon olha surpreso para o homem e pergunta:

Simon – Livre? Como assim, livre?

Homem – Livre! Simplesmente livre para sair daqui. 

Simon continua surpreso. O homem continua.

Homem – Há alguns dias, sofri uma emboscada. Meu motorista morreu, escapei por pouco. Porém, uma bala atingiu minha perna e perfurou uma artéria importante e desde então não parei de sangrar. Estou morrendo; assim esse é meu último Natal.

Simon – E o que eu tenho haver com isso?

Homem – Eu sei que tudo isso é muito estranho, mas pra mim é muito importante poder falar com alguém do seu povo. Por isso pedi à minha secretária que escolhesse o servo mais comum deste hospital para vir até aqui.

O homem puxa uma pistola do coldre e coloca sobre a mesa.

Homem – Você terá a oportunidade de estourar minha cabeça com a garantia que ninguém vai te impedir de sair daqui. Porém, eu só queria te pedir uma coisa...

Simon (Assustado) – Pedir? O quê?

Homem – Que antes de me matar você me ouça!

Simon – Ouvir você?

Homem – A história da minha escolha.

Voz de Simon: Naquele momento o ódio chegou a doer em mim. Depois de ter sido separado da minha família e sofrer tantos abusos, estava ali diante da vingança. Não sabia nem o que pensar a não ser no momento em que mataria um nazista. Um nazista cretino!

Simon responde:

Simon – Certo. Vou te ouvir.

CENA 3

O homem pergunta a Simon:

Homem – Você tem uma família?

Simon olha com desprezo e responde:

Simon – Tive...

Homem – Entendi. Há quanto tempo as tropas invadiram sua cidade?

Simon – Um ano.

Homem – Desde então, não viu mais seus pais?

Simon – Nem meus pais, nem meus irmãos.

Homem – Eu também tive uma família. Sou da Baviera e minha família tinha hábitos bem simples. Todos trabalhavam na lavoura, mas éramos felizes. Até que veio a primeira guerra e tudo acabou.

Simon – Acabou, como assim?

Homem – Guerra é guerra rapaz. Uns ganham outros perdem. E na primeira guerra, perdemos. Tudo. Porém o que mais doeu foi matar os sonhos... Quem mata os sonhos perde o contato com o Eterno...

Simon – Que eterno?

Homem – Aquele que o seu povo chama de Adonai.

Simon ficou de pé.

Simon – Não pronuncie este nome, seu... Seu... Canalha!

O homem olhou diretamente para Simon e respondeu:

Homem – “Canalha”, a palavra mais verdadeira que ouvi nos últimos anos.

Há um silencio. Simon aos poucos se acalma.

Homem – Ver a minha nação humilhada trouxe um sentimento de revolta coletiva, e em bem pouco tempo os ensinos até então ministrados nas igrejas perderam o sentido.

Simon – Você frequentava uma igreja?

Homem – Sim. Eu e minha família. Ouvíamos falar sobre os ensinamentos de Jesus.
 
Simon – O Nazareno?

Homem – Sim, o chamado Messias. 

Simon – Está explicado.

Homem – O que está explicado?

Simon – Não vou responder, estou aqui para te ouvir.

Homem – Claro, claro! Desculpe. Mas, continuando, lembro-me que uma frase me era muito forte e significativa: Vinde a mim todos os que estão cansados e oprimidos... Eu vos aliviarei. Sabe? Eu já cri nesta palavra.

Simon – Talvez seja este o problema do seu povo: Crer que a doutrina de Jesus de Nazaré seja a doutrina da salvação. Veja as mazelas que a religião cristã deixou como legado na história.

Homem – Principalmente para o seu povo.

Simon – Principalmente para o meu povo!

Homem – Sempre tive uma dúvida. Se Jesus, representa uma religião.

Simon – Bem, não sei te explicar. Mas o que se faz em nome dele...

Homem – Exatamente por isso. Você já leu os Evangelhos?

Simon – Alguma coisa, mas prefiro a Lei.

Homem – As Leis de Moisés?

Simon – Sim, as Leis de Moisés.

Homem – Dente por dente, olho por olho... (Ele fala, pega a pistola e olha diretamente para Simon).

Simon – Isso, olho por olho; dente por dente!

Neste momento, o homem sente algo e se contorce de dor... Simon olha, mas não reage. O homem pede:

Homem – Por favor, pegue este frasco (Aponta para uma prateleira).

Simon olha e não pega.

Homem – Por favor, ainda não é o momento e você prometeu me ouvir.

Então Simon levanta calmamente; pega o frasco e entrega ao homem que tira dele um comprimido e toma.

CENA 4

Voz de Simon – Estar naquele cômodo com um dos assassinos mais frios da história me motivava a pensar em todo o momento como o mataria. Seria com requinte de crueldade. Eu de certa forma me sentia com a possibilidade de vingar meu povo.

Homem – Obrigado.

Simon ficou em silêncio.

Homem – Mas voltando à Lei. Foi assim que me senti em relação ao mal que me sobreveio. Ver a minha família arruinada me despertou a ira que reinou em mim até hoje. Por isso te entendo. Há em cada um de nós uma necessidade tremenda de revidar com a mesma moeda, ou até mais.

Simon – Não compare o meu povo e as nossas atitudes com... Com... Sua raça!

Homem – Não, longe disso. Não estou falando de um povo, estou falando de gente. Gente pensa e escolhe. Eu escolhi o caminho que me parecia mais simples, seguir o projeto do meu líder e me vingar. Matando, destruindo e mostrando a todos que somos fortes.

Simon – E em nome deste ideal vocês matam e roubam? 

Homem – É... Mas veja você que agora no final, vi que não valeu a pena. Veja o que me restou?

Simon – E o que eu, ou o Natal ou mesmo este tal Jesus temos haver com o seu momento de fraqueza?

Homem – É que desde o momento em que soube do meu estado e do pouco tempo que me resta, algumas coisas voltaram a fazer parte dos meus pensamentos. E o nome de Jesus voltou a fazer sentido, assim como suas frases: “Tudo o que quereis que os Homens vos façam, fazei a eles primeiro”. “Não julgueis e não sereis julgados”.

Simon (Gritando) – Pare! Isso não faz sentido! Quando se dizem seguidores deste Jesus e também matam, destroem, roubam...

Homem – É verdade. Eu agi assim. Muitas vezes. Porém, hoje algo diferente aconteceu. Pensei no inferno. Pensei no pecado. Pensei numa estação de trem onde um vagão lotado de pessoas esperava pela minha decisão. E eu ordenei que ateassem fogo em volta, depois ordenei que abrissem as portas e... (Baixou a cabeça) quando as pessoas desesperadas começaram a correr, ordenei que atirassem. Homens, mulheres e crianças foram mortos sem piedade, enquanto eu bebia mais uma taça de vinho. Quando tudo acabou, andei triunfante entre os corpos, até que meu coturno encostou numa jovem branca de feições finas. Seu rosto ensanguentado mostrou reação. Verifiquei que ainda vivia. Puxei esta pistola e apontei para ela. Foi quando ouvi “Jesus tenha misericórdia de ti”. A frase mexeu comigo, mas mesmo assim eu atirei.

Silencio.
Num súbito, Simon levanta pega a arma e aponta para cabeça do homem.
Ele não reage.

Homem – Vamos lá. Complete sua obra. É para isso que você foi chamado até aqui.
Porém, me permita uma pergunta: Você vai mudar o seu mundo e o meu, ao puxar este gatilho?

A pergunta tem efeito imediato em Simon, que, aos poucos, baixa a arma.

Homem – Eu agi por vingança e chego ao final dos meus dias com sangue nas mãos e um coração vazio. Pra mim, agir pelo ódio mudou minha vida para pior.

Voz de Simon – Foi o momento mais importante da minha vida. Pela primeira vez eu pensei além da minha cultura. O que Jesus Cristo teria causado naquela vida? Foi o que pensei.

Simon – Quem é Jesus pra você?

Homem – E pra você?

Simon – Um profeta!

Homem – Bem, Ele já foi o fundador da minha religião.

Simon – Já foi?

Homem – Sim...

Simon – E agora, o que Ele é pra você?

Homem – O Único que pode me salvar da minha consciência que dói e me mata em vida.

Simon – Como assim? Salvar?

Homem – Numa destas andanças pelo mundo, num dia de verão encontrei um túmulo. Na lápide li o seguinte texto: “Minha memória já quase se foi, mas eu recordo duas coisas: Eu sou um grande pecador, Cristo é o meu grande salvador: John Newton, uma vez infiel, pecador e libertino, um mercador de escravos na África, que foi, pela misericórdia de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, perdoado e inspirado a pregar a mesma fé que ele tinha se esforçado muito por destruir".

Simon – Você acha mesmo que encontrará perdão depois de tantas maldades?

Homem – (Balançando a cabeça negativamente). Minha esperança é ser a ovelha perdida ao qual Jesus deixa as noventa e nove e volta para buscar.

FINAL

Voz de Simon – Há tempos movia minha vida no ódio; naquele dia tive o poder de esmagar um deles. Mas, algo diferente havia naquele ambiente. Lembrei-me de uma oração que fiz numa das noites que passei no campo de concentração: “Deus se é que o senhor existe, me permita ver a sua face”. E agora eu estava diante de um inimigo.

Homem – Pronto. Pode me matar agora.

Simon toma um susto, mas pega a arma (Música de suspense) aponta para a cabeça do homem que baixa a cabeça e fecha os olhos. Entre lágrimas, mexe os lábios numa oração quase silenciosa.

Simon olha com raiva para o homem que continua sem resistência. A voz de Simon volta a ser ouvida, com a oração: “Deus se é que Senhor existe, me permita ver a sua face”. As mãos estão trêmulas. O rosto duro segue o instinto, o dedo prestes a acionar o gatilho.

Neste momento, ouve-se um som de um sino.

Simon grita – Não posso! Não posso! Jesus me Salve também!

Os dois choram compulsivamente. Uma canção de Natal passa a ser ouvida.

Simon olha para o homem que também chora compulsivamente. Logo depois, sai da sala em disparada.

Logo depois Simon surge em cena, mais velho. Ele olha para o público e ouve-se a voz:

“Aquele foi meu primeiro Natal. Descobri minha verdade, de ódio e religiosidade na face de um nazista que só implorava por perdão. Um perdão acima da religião, da filosofia e dos conceitos humanos. Um perdão que eu não podia oferecer. Ao falar sobre sua vida miserável, aquele homem também expôs a minha realidade, tão desgraçada quanto a dele. Éramos dois necessitados do Amor de Deus e eu não tenho dúvidas que o Bom Pastor Jesus veio até nós e nos acolheu, cuidou das nossas feridas e nos trouxe de volta para o seu rebanho. E você? Como vai sua vida? Que tal permitir que Esta Luz, que veio para alumiar todos os homens, faça da sua existência uma existência amor e perdão? Viva hoje o seu Natal. Assim como aconteceu comigo e com aquele homem”.

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