CORTE PALAVRAS (William Douglas)

William Douglas, juiz federal, professor, escritor
 
A boa redação exige burilamento, esforço, paciência. Um dos desafios é fazer textos curtos, escolhendo palavras que preservem o sentido do que desejamos dizer sem gastar espaço desnecessário. Entre os cuidados que podemos ter está usar abreviaturas mais conhecidas e até mesmo procurar palavras mais curtas com o mesmo efeito prático. É conhecido o pedido de desculpas de um escritor ao seu amigo: “Me perdoe a carta longa, não tive tempo de fazê-la mais curta”.
Um exemplo:
“Acerca do tema, recentemente (18/12/2014), o STF retomou discussão envolvendo o índice a ser utilizado no caso dos precatórios. No julgamento da Ação Cautelar – AC 3.764, em medida cautelar, o Ministro Relator, Luiz Fux, sinalizou que o Índice de Preço do Consumidor Amplo (IPCA) deveria ser aplicado, contrariando a Corregedoria Nacional de Justiça que determinou o pagamento com base na TR (Taxa Referencial).”
Texto com 411 caracteres, com espaços.
 
Alternativa:
“Em 18/12/2014, o STF retomou discussão envolvendo o índice a ser utilizado nos precatórios. No julgamento da Ação Cautelar 3.764, em medida cautelar, o Relator, Min. Luiz Fux, sinalizou que o IPCA deve ser aplicado, contrariando o CNJ que determinou o pagamento com base na TR.”
Texto com 276 caracteres, com espaços.
 
Outro exemplo, tirado do mesmo artigo, o qual me inspirou a escrever este alerta:
“Como sabemos, o IPCA é índice oficial do Governo Federal para medição das metas inflacionárias, inclusive pelo Banco Central, já que reflete a elevação dos preços de produtos que possuem impacto direto na remuneração dos servidores públicos.” 
Texto com 241 caracteres, com espaços.
 
Alternativa:
“O IPCA é índice oficial do Governo e do Banco Central para medir a inflação, pois reflete a alta dos preços que impactam a remuneração dos servidores públicos.”
Texto com 159 caracteres, com espaços.
 
Só nesses dois trechos a diferença é de 652 caracteres, versus, 435 das alternativas, o que equivale a menos 217 caracteres. Ou, em termos de espaço, tudo isso:
 
“xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx”
Imagine a diferença que estes cuidados não fariam em um artigo, redação ou petição! Claro que você deve escolher seu objetivo e qual tipo de texto está escrevendo. Uma dissertação ou tese pode (até deve) ter linguagem mais rebuscada, mas para quem quer ser lido... não tem jeito, tem de fazer texto o menor possível, claro, direto, simples.
A publicação em jornais de grande circulação exige textos curtos. Quanto menos famoso você for, menos espaço terá. E quanto menos famoso for, mais diferença fará para seu currículo publicar lá.
Uma sentença deve ser direta, rápida e curta, pois o objetivo não deve ser mostrar erudição (interesse pessoal do juiz), mas resolver o problema com celeridade até porque há outros processos esperando sentença. Em um concurso público, porém, eu não seria tão reducionista, pois ali vale impressionar o examinador. Cabe uma redação um pouco mais elaborada. Ainda em concursos, redigir bem ajuda a lidar com o problema de espaço limitado para resposta e, ao evitar falar demais, a boa administração do tempo de prova. 
Em tempos como os nossos, de urgência, de 140 caracteres, essa habilidade o ajudará a conseguir o que qualquer pessoa que escreve deve pretender: ser lido. Os meus livros, escrevo para os outros, não gasto tempo querendo mostrar erudição ou falando difícil. Estou ali para servir, para resolver problemas do leitor e para ajudá-lo a melhorar sua vida. Claro que isso tem um custo. Sempre aparece algum acadêmico empolado dizendo que não gosta do que escrevo. “É autoajuda”. Isso só confirma que toda escolha na vida envolve agradar a uns e desagradar a outros. Prefiro seguir meu jeito, que já resultou em mais de um milhão de livros vendidos e milhares de leitores que me escrevem agradecendo a ajuda que dei.
Por isso, aprenda a redigir bem. Escolha qual é seu objetivo e o público ao qual se dirige. Escreva para quem vai ler você. Corte palavras inúteis. Dizem que “poesia é a arte de cortar palavras”. Isso, porém, depende: quando escrevo ou leio poesia, estou me divertindo, não tenho pressa. A poesia pode ser longa, pois ela é como a companhia: quando agrada, pode ficar mais tempo. Contudo, se tenho pressa, ou se o leitor a tem, que sejamos gentis com o leitor e rigorosos com o tempo e a quantidade de letras.
 

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