Um estranho no ninho (Carlos Daniel)

Este ano (2011) minha esposa me convidou para acompanhá-la em um congresso nacional de sua área. Aceitei o convite, pois seria uma excelente oportunidade para passarmos alguns dias fora da rotina. A viagem seria com seus colegas de faculdade, por isso a universidade em que ela estuda alugou um ônibus para levar todos os alunos e agregados.

No dia da viagem chegamos um pouco antes do horário da partida do ônibus e só então me dei conta de que, pela primeira vez na vida, iria viajar em uma excursão de não-cristãos. Enquanto o motorista guardava as malas dos alunos, eu fiquei olhando para eles. Alguns se despediam dos namorados, um outro fumava, outros apenas conversavam sobre seus planos para a viagem. Lembro-me de uma garota que cantava um conhecido samba e que parecia bem feliz. Não estou acostumado a ouvir em minhas conversas as interjeições que ouvi por lá. Ao invés do usual “caraca" usado pelos cariocas, a expressão com “c” era outra e era falada tanto pelos rapazes como pelas moças. Não sei bem o motivo, mas vendo tudo aquilo, passei a ter uma sensação de medo. Não sei explicar completamente, mas era como se aquelas pessoas, não-cristãs, fossem “perigosas”.

Fiquei mais calmo após uma estudante, em outra parada do ônibus, entrar e sentar-se no banco ao nosso lado. Ela retirou de sua bolsa um livro de meditações diárias e uma bíblia. Como eu conhecia o livro, percebi que ela era cristã. Senti-me aliviado, minha esposa e eu não seríamos os únicos cristãos do ônibus.

O percurso foi muito tranqüilo e durou seis horas. Durante esse tempo, os passageiros jogaram cartas, tocaram violão, pandeiro e flauta e cantaram várias músicas da década de 80. Um fato que me fez concluir, mais uma vez, que a década de 80 foi, realmente, uma década singular, musicalmente falando. Quando um dos alunos começou a tocar sua flauta transversal no fundo do ônibus, todos os outros correram para ver. Uma garota dizia que era uma flauta diferente, não era daquela tocada reta, mas de lado. Pensei que em uma igreja até as crianças já convivem com instrumentos assim e logo senti a soberba evangélica tomar conta de mim.

Embora algumas pessoas, em uma conversa, tenham dito que eram kardecistas, no início da viagem uma delas disse: “Que Deus nos leve em paz”. Quando começamos a subir a serra e a neblina cobria tudo, as expressões eram “Que Deus nos livre e guarde” ou “Graças a Deus, passamos”. Isso mostra um pouco do inconsciente sincretismo religioso das pessoas.

A bolha

Em 2011 completara seis anos que passei a viver no que chamo de “a bolha cristã”. No início de 2005 deixei meu trabalho em um órgão público de meu estado e me mudei para a cidade do Rio de Janeiro para estudar teologia no Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil. Durante os quatro anos de estudo também consegui trabalhar, pois meu curso era à noite. Nos primeiros dois anos fiz estágio na Ordem dos Pastores Batistas do Brasil e nos dois últimos, consegui outro estágio no próprio Seminário. Nesses quatro anos também ajudei no início de uma igreja na zona sul da cidade, ou seja, de domingo a domingo somente convivia com os ‘irmãos’. Após concluir o curso de teologia passei a trabalhar em uma igreja como pastor auxiliar. Desta forma, são seis anos apenas convivendo com pessoas cristãs.

Pode soar estranho para alguns a expressão “bolha cristã”, mas quem convive apenas com cristãos sabe que é um mundo a parte. Não um mundo perfeito, pois cristãos são humanos, mas é como se fosse uma tribo dentro da sociedade. Cristãos não falam palavrão, não fumam, não bebem, não contam piadas sujas, estão acostumados com acampamentos e passeios, além dos outros hábitos como orar em conjunto antes da viagem ou das refeições, falam de Bíblia, de bênçãos e estão na igreja aos domingos, somente para citar alguns hábitos que me lembro agora.

Uma amiga de minha esposa, que me conhecia de outro congresso, me perguntou se eu estava me divertindo. Quando eu disse que sim, ela me perguntou se eu já havia visitado alguma igreja na cidade. Fiquei imaginando que ela deve pensar que meu passatempo é freqüentar igrejas. De certa forma, ela está certa.

A fotografia

Como era um congresso nacional, com a participação de mais de mil pessoas, tive a sensação de estar vendo uma fotografia de uma parte do Brasil. Nessa fotografia percebi que a maioria dos participantes era formada por jovens. Eram estudantes de mestrado e doutorado ou iniciação científica que traziam suas pesquisas e a exibiam, cada um em seu pôster no centro de convenções da cidade.

Chamou-me a atenção o fato de não haver participação de negros no congresso. Poucos eram os afro-descendentes nos corredores. Fiquei pensando na cota para negros das universidades e o que acontece depois que o estudante afro-descendente está lá dentro.

Também me chamou a atenção o fato da maioria dos trabalhos serem das universidades da região sudeste e sul do País. Alguns poucos vinham da região nordeste. As outras duas regiões, norte e centro-oeste, não possuia nenhum representante. Sinto-me um pouco incomodado com isso, pois a região centro-oeste é minha região natal.

Não havia nenhum índio no congresso. Infelizmente, eles ainda são tratados como sub-humanos na maioria dos casos e poucos são os que conseguem entrar em uma faculdade.

Também não havia nenhuma pessoa portadora de necessidades especiais. Nenhum cadeirante circulava pelos corredores.

Contudo, vendo as pesquisas, fiquei animado, pois, praticamente, todas visam o bem da humanidade. Muitos preocupados com o meio ambiente e muitos tentando novas formas de combater doenças ou melhoria no tratamento delas. Não sei informar o que acontece por trás das pesquisas. Será que todos esses jovens alunos têm consciência de que suas pesquisas podem contribuir para um mundo melhor? Por outro lado, será que o Governo está disposto a investir nas pesquisas que obtiverem êxito? Não tenho essas respostas.

O álcool

Em uma das noites houve um coquetel com muita comida e bebida. Fiquei muito impressionado com a quantidade de bebida consumida pelos jovens. Na volta para o hotel, muitos rapazes trouxeram latas e latas de cerveja para tomarem no ônibus. Eles e as garotas estavam “alegres” e foram cantando durante o percurso de 12 Km. Fiquei muito triste quando vi uma jovem de 18 anos, estudante de iniciação científica, bebendo sem parar. Tão novinha, ainda saindo da adolescência e ali, longe dos pais, se ‘aventurando’ no álcool.

Desse episódio conclui que não vale à pena levar os jovens da igreja para fazer evangelismo de massa quando as pessoas estão comemorando. É muito melhor ensinar ao adolescente e ao jovem que ele precisa viver o Evangelho no seu dia-a-dia e assim falar de Jesus para seus amigos, do que ficar levando-os toda semana para evangelizar na frente das boates. É fácil fazer evangelismo de massa, o difícil é ser cristão diariamente, na frente daquele colega que nos vê todos os dias.

Conclusão

Enfim, essa viagem me fez perceber algumas coisas e me lembrar de outras:


1)     As pessoas não-cristãs são pessoas normais que querem viver as suas vidas como nós, cristãos, queremos viver as nossas.

2)    
Muitos jovens se iniciam no álcool durante a faculdade. Muitos desses pertencentes à alguma igreja cristã, mas que não tiveram uma sólida base na infância e/ou adolescência.

3)    
Existe uma mistura de crenças por parte das pessoas, mas, no final, a maioria delas acredita em Deus e que Ele é o todo-poderoso

4)    
Nem todos os jovens de nosso País estão perdidos ou sem visão de futuro.

5)    
Precisamos, como igreja, investir no discipulado de nossos adolescentes para que se tornem jovens cristãos autônomos possuidores de uma fé libertadora.

6)    
Nós, os que vivemos na “bolha cristã”, precisamos, de alguma forma, sair um pouco dela. É lá fora que o mundo está girando e nós, infelizmente, não estamos vendo.
 

Sobre algumas questões ainda estou refletindo. Cito aqui, mas continuo a pensar:


1)    
Os não-cristãos também são felizes. Esta é uma afirmação difícil de dizer e ainda não estou plenamente convencido dela, porém a faço para continuar pensando.

2)    
Nós, cristãos, nos achamos melhores que os outros. Falo por mim. Talvez eu tenha aprendido errado, pois ao ler o Evangelho não vejo Jesus dando essa instrução ou se sentindo assim. Talvez quando Ele fala sobre o sal da terra e a luz do mundo, mas ainda não sei.
 

O filme “Um estranho no ninho” foi lançado em 1975. Eu só o assisti em 2001, contudo somente me senti nele em 2011, trinta e seis anos após seu lançamento. Nessa experiência, descobri que o ‘ninho’ pode até ser outro, mas o pássaro sempre será o mesmo: humano.

  

Carlos Daniel

 

Comentários   

 
0 #4 IncentivoGuest 23-02-2012 13:14
Olá Pastor...Parabé ns pelo texto escrito muito bom! Que nos cristãos possamos ter uma base sólida. E as igrejas investir mas no discipulado. Isto é maravilhoso!!!
 
 
0 #3 Felicidade?Guest 08-11-2011 11:03
CD, acredito que a felicidade "não-cristã" seja superficial.
Como vc mesmo observou, as pessoas em geral buscam várias maneiras de se distrair de seus problemas, ou buscar a felicidade, pra não fugir do clichê.
Nós cristãos temos a Palavra que sempre traz ensinamentos, e temos amigos verdadeiros que trazem conselhos e experiências.
Os "não-cristãos" chamam de felicidade (temporária) a bebida, as drogas, as festas, a promiscuidade,etc...
Eles não têm a Palavra; eles não têm amigos verdadeiros; eles não têm Deus, apesar de lembrar Seu nome em frases soltas, como vc percebeu, enfim, eles não têm a verdadeira felicidade.
Nós podemos apresentá-la. Nós podemos testemunhá-la. Falar dela, sem cair na "soberba evangélica".

Abraços, FC
 
 
0 #2 Ajudando a sair da bolhaGuest 08-11-2011 09:11
Bom dia Pastor, belo texto e reflexão.

Para lhe ajudar a sair da bolha, trago-lhe uma sugestão: considere que na sua igreja há diversos membros, asim como eu, que são convertidos em idade adulta, que possuem a visão dos dois lados.

Conte com essa experiência.
 
 
0 #1 ConsideraçõesGuest 08-11-2011 00:47
Só conhecemos um mundo e foi para ele por ele que Cristo veio,morreu e ressuscitou.
A avaliação de Felicidade,vai depender do conceito que lhe atribuirmos, independente da nossa fé.
Quanto à bolha, somos nós que a criamos,portant o é nossa a opção de viver dentro ou fora dela.
Chamados fomos,a fazer com que a luz de Cristo brilhe,
“os raios de sol tocam a lama e não perdem a sua pureza, dessa forma podem ajudar a lama a gerar flores”
Foi para isso que Jesus desejou discípulos e Ele sabia e sabe da nossa condição:humano s, apenas humanos.
 

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