Exemplo de projeto de pesquisa (exemplo 3)

A RÉGUA E O COMPASSO

A prática da proposta protestante sobre a crença, o corpo, a comunidade e o cosmos entre os batistas brasileiros.


Por
Israel Belo de Azevedo




Elementos preliminares para a elaboração de um projeto de pesquisa


A RÉGUA E O COMPASSO

A prática da proposta protestante sobre a crença, o corpo, a comunidade e o cosmos entre os batistas brasileiros.


Por
Israel Belo de Azevedo




Elementos preliminares para a elaboração de um projeto de pesquisa


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1. DELIMITAÇÃO

Um estudo sobre a teoria e a prática dos batistas brasileiros quanto à crença (auto-compreensão denominacional e papel da religião), ao corpo (moral e costumes), à comunidade (ética social e política) e ao cosmos (escatologia e história), como experienciadas numa comunidade.
O estudo tomará como objeto a prática da Primeira Igreja Batista de Piracicaba, fundada em 1955 e que reúne, no centro da cidade, cerca de 150 fiéis dominicalmente em média.
Essa experiência será vista à luz dos ensinos veiculados pelos meios batistas de comunicação/educação religiosa, no esforço de levantar como as propostas ético-doutrinárias da hierarquia são recebidas no nível local.
Para efeito de comparação, os cultos da comunidade em Piracicaba serão comparados aos da Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro, fundada em 1884.  Escolhemos esta igreja pelos seguintes motivos:
1. Foi, por muitos anos, a maior igreja batista do Brasil e considerada uma espécie de igreja-padrão.
2. Mantém um bem-organizado departamento de história e que produziu um bem documentado volume dessa história (AZEVEDO, Israel Belo de. Coluna e firmeza da verdade. Rio de Janeiro: PIB, 1985. 172p.)
3. Tem os seus cultos gravados integralmente desde meados dos anos 70.
A pesquisa privilegiará o período de setembro a novembro de 1991, que, na estrutura curricular de ensino dos batistas, tangencia dois trimestres de estudos.

2. JUSTIFICATIVA

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Nos anos 70, conheci uma igrejazinha (congregação, segundo a terminologia oficial) batista no interior do Paraná.
Era um templo de madeira, elevado, no meio de uma roça, pintado de verde. As pessoas chegavam a pé, a cavalo ou de carro (caminhão, trator, automóvel). Dentro, assentavam-se as mulheres à esquerda, os homens à direita e as crianças à frente, de ambos os lados.
Nos anos 80, conheci uma igrejazinha (congregação, segundo a terminologia oficial) batista na perifieria de Vitória, no Espírito Santo.
Era um templo de madeira, elevado, quase na beira da estrada, pintado de verde. As pessoas chegavam a pé, de ônibus ou de automóvel. Dentro, assentavam-se as mulheres à esquerda, os homens à direita e as crianças à frente, de ambos os lados.
E eu era a única pessoa que conhecia as duas comunidades.

A eleição do tema pode ser justificada a partir de uma série de fatores, cuja interseção se encontra na biografia mesma do pesquisador. Por esta circunstância, esses fatores podem ser conjugados em dois:

1. Os batistas como tópico de estudo se justificam em si mesmos, pela sua antigüidade e presença no Brasil, marcadas por um tipo de compromisso social e por uma certa regularidade em termos de crescimento e institucionalização. Eles são hoje a maior denominação (800 mil membros registrados) do protestantismo de missão no Brasil, mas não foram objeto ainda de um estudo rigoroso.
2. A inserção do pesquisador na comunidade batista convida-lhe à saborosa aventura de discutir um objeto de que faz parte ele mesmo, como se estivesse fora dele; permite-lhe a singular possibilidade de investigar um objeto com os atavismos que um pesquisador de fora não teria como cultivar; e lhe apresenta o perigoso desafio de, numa ciência combatente, interagir com o objeto, no desejo de negá-lo e afirmá-lo.

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3. OBJETIVOS

Partindo da premissa de que "a religião é o que a religião faz" com os seus fiéis,  1  o estudo visa, entre outros aspectos:

1. Perceber os contornos da mentalidade batista, nos planos nacional e local.

2. Levantar as opiniões dos batistas quanto à crença, ao corpo, à comunidade e ao cosmos.

3. Verificar a relação entre o discurso religioso e a sua prática numa determinada comunidade.

4. Descobrir as razões que levam as pessoas a se filiarem e a permanecerem na igreja.

5. Contribuir para explicar a coesão doutrinária e institucional, apesar de seu sistema congregacional de governo.

6. Determinar se os batistas priorizam a (reta) doutrina, em detrimento da (reta) conduta, como o compromisso essencial dos seus fiéis.

O pesquisador, neste trabalho, está consciente dos seus limites, ciente do aviso de Roger Bastide: uma vez que "a religião traduz, ao lado de tendências coletivas e de necessidades sociais, os solilóquios solitários das almas, a agitação secreta dos corações e a nostalgia dos espíritos em busca do absoluto, insinuam-se no interior deste determinismo [dos fatos religiosos] imprevisíveis começos, germos misteriosos e promessas de flores desconhecidas cuja presença a sociologia religiosa pode constatar mas não pode explicar". 2

Nosso esforço será explicar o coletivo e o social, embora esses possam tocar o individual, o secreto e a nostalgia.

EXEMPLO DE PROJETO DE PESQUISA, 3

4. FONTES

O esforço de análise se concentrará na verificação de como os textos oficiais da igreja foram percebidos na comunidade escolhida.

4.1. Fontes Textuais
Jornal Batista, semanário oficial da igreja no país;
Palavra e Vida, revista trimestral de ensino religioso para adultos;
Reflexão e vida, revista trimestral de ensino religioso para adolescentes;
Juventude, revista trimestral de treinamento religioso para jovens;
Campus, revista trimestral de treinamento religioso para universitários;
Batista Paulistano, mensário oficial da igreja no estado;
Livros utilizados na comunidade escolhida.

4.2. Testemunhais
Observação e registro dos cultos (hinos e sermões) e classes de ensino (escola bíblica e uniões de treinamento) das Primeiras Igrejas Batistas de Piracicaba e do Rio de Janeiro;
Aplicação de entrevistas de profundidade (focus groups) e questionários de opinião;
Leitura de livros de atas da igreja escolhida, no período.

4.3. Secundárias
Pesquisas de opinião desenvolvidas entre batistas;
Estudos sócio-historiográficos sobre os batistas.

EXEMPLO DE PROJETO DE PESQUISA, 3

5. PROBLEMAS
A pesquisa procurará responder aos seguintes problemas:

5.1. Problema central
Como os batistas vivenciam na prática seus ensinos sobre crença (auto-compreensão), corpo (moral), comunidade (ética) e cosmos (teologia da história)?

5.2. Problemas corolários
1. Qual é o ensino dos batistas (tanto no plano nacional como no local) acerca de sua crença, do corpo, da comunidade e do cosmos?
Ao se conceberem como os detentores por excelência da verdade apostólica do Novo Testamento, 3. Petrópolis: Vozes, 1980. afirmativa que está na base da sua formulação teológica e pode ser encontrada em vários lugares,  4 os batistas parecem pretender cunhar uma teologia e uma prática própria em termos de moral individual ("usos e costumes", na terminologia pentecostal), de ética social e política e de filosofia da história.
Possivelmente, isto os coloca numa visão, paradoxalmente, contra-cultural e conversionista, no sentido de Niebuhr. 5

A partir das fontes escolhidas, será preciso levantar a natureza desse discurso.

2. Qual é a prática dos batistas acerca de sua crença, do corpo, da comunidade e do cosmos, em Piracicaba?
Na pista de Evans-Pritchard, já referido, será necessário ver a articulação desse discurso na prática. Só assim, por exemplo, será possível perceber o quanto de autenticidade e o quanto de jogo-de-cena há nessas afirmações e confissões.

3. O que atrai e mantém as pessoas na igreja?
O problema é significativo, na medida em que as igrejas batistas em geral, e a de Piracicaba em particular, oferecem uma religião racional (no sentido de Weber. Uma evidência deste racionalismo pode ser encontrada na teologia batista acerca do Espírito Santo, como bem explicitada nesta frase: "A atuação do Espírito Santo começa na esfera empírica ou externa e prossegue para a plena consciência própria, de compreensão racional e de relações éticas", 7 com pouco espaço para a oração enquanto garantia de curas, pouca expressão para a comunhão fraternal e pouco lugar para o crente se sentir um cidadão (como acontece no pencostalismo, entre outros "produtos" capazes de seduzir as pessoas.
Que desejos atendem elas, então? Por que a corda (no dizer de Mircéa Eliade 9 ) não se rompe?
Neste contexto, será preciso investigar a procedência dos membros quanto à sua filiação religiosa anterior. A prática piracicabana parece ir na mesma linha da Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro, por exemplo, sempre viu com apreço, especialmente no pastorado de João Filson Soren (1935-1986), a adesão de filhos pequenos (a partir dos sete anos de idade). Em termos gerais, isto parece contrariar o discurso oficial em torno da conversão dramática, necessidade destacada até nos romances batistas estudados por Elter Maciel. 10

4. Qual a pedagogia utilizada (tanto no plano nacional como no local) na busca da coesão denominacional, doutrinária e moral?
Parece óbvio que a coesão dos batistas, percebida inclusive no plano local, deve ser explicada por sua pedagogia da repetição, expressa nos vários veículos de consumo e estudo compulsório (embora não obrigatório) nas igrejas.
Possivelmente a teoria do mimetismo, de René Girard, pode ser útil aqui.

4. Como é tratado o desvio doutrinário e moral no plano local?
Em geral, os batistas são rígidos diante do desvio, o que faz com que o jogo-de-cena apareça como uma estratégia de auto-defesa individual.
Esses comportamentos diferentes, e seus julgamentos, devem ser vistos à luz dos condicionantes de classe.
Também, uma outra pergunta precisa ser feita: qual a influência do metodismo local, dada a inserção dos batistas numa cidade marcada especialmente por uma Universidade medodista (a UNIMEP)? A indagação se impõe diante do ir-e-vir de membros entre a igreja batista e a metodista.

6. Priorizam os batistas a reta doutrina, em detrimento da reta conduta?
Estudando o presbiterianismo, Rubem Alves 11  concluiu ser ele um protestantismo de reta doutrina. Embora para ser esta uma verdade, a ênfase na moralidade (parece que pouco sobrará do edifício batista, se se abstrair do seu corpus os preceitos morais que preconiza) e na identificação denominacional (parece que o batista se concebe primeiramente como batista, depois como cristão e por último como cidadão 12 ) sugere a necessidade de se buscar uma outra classificação, talvez Protestantismo da Reta Denominação

EXEMPLO DE PROJETO DE PESQUISA, 3

6. PLANO PRELIMINAR

1. Introdução
1.1. Um história combatente: um protestante estuda o protestantismo (na esteira de Weber, Troeltsch, Niebuhr, D'Épinay, Leonard, Alves, Mendonça)
1.2. Metodologia de trabalho: história social da produção e da recepção das idéias religiosas

2. Protestantes e batistas
2.1. O lugar dos protestantes (perfil sócio-econômico dos protestantes no Brasil e em Piracicaba)
2.2. O lugar dos batistas (perfil sócio-econômico dos batistas no Brasil e em Piracicaba)

3. O ensino dos batistas
3.1. O discurso do protestantismo brasileiro (sobre crença, corpo, comunidade, cosmos)
3.2. Meios/métodos de ensino (in/formal) batista
3.2. Conteúdo do ensino batista: crença, corpo, comunidade, cosmos

4. A prática dos batistas
4.1. A adesão
4.2. A regra
4.3. O desvio
4.4. A coesão

5. Régua e compasso
5.1. Fontes do ensino e da prática
5.2. A prática do discurso
5.3. Pontos de encontro entre ensino e prática
5.4. Pontos de desencontro entre ensino e prática

6. Conclusão

EXEMPLO DE PROJETO DE PESQUISA, 3

NOTAS

1. EVANS-PRITCHARD, E. E. Antropologia social da religião. Rio de Janeiro: Campus, 1978, p. 164.

2. BASTIDE, Roger. Elementos de sociologia religiosa. São Bernardo do Campo: IEPG, 1990, p. 136.

3. Esta percepção está muito próxima do depositum fidei católica, recordada por Leonardo Boff, em Igreja, carisma e poder. Petrópolis: Vozes, 1980.

4. Cf. O Jornal Batista, de 25.12.1941, p. 2. que estabelece: "somos depositários da doutrina cristã, segundo a entendemos e nela cremos", conquanto "muitos milhares e milhões de pessoas não batistas" sejam "crentes verdadeiros". Citado por AZEVEDO, Israel Belo de Azevedo. A palavra marcada; um estudo sobre a teologia política dos batistas brasileiros, de 1901 a 1964, segundo O Jornal Batista. Rio de Janeiro, 1983. 376p., p. 206. [Dissertação -- Mestrado em Teologia -- Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil]. PARA COMPRAR CLIQUE AQUI

5. NIEBUHR, H. Richard. Cristo e cultura. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967.

6. WEBER, Max. Cf. EVANS-PRITCHARD, E.E., op. cit., p. 162.

7. Cf. PURIM, Reinaldo. O Espírito Santo. Rio de Janeiro: Brasil Batista, 1977, p. 97.

8. Cf. os estudos de Rubens César Fernandes sobre os pentecostais. entre outros "produtos" capazes de seduzir as pessoas.

9. Cf. DESROCHE, Henri. Sociologia da esperança. São Paulo: Paulinas, 1985, pp. 7-10.

10. MACIEL, Elter Dias. A ficção batista. Rio de Janeiro: ISER, 1983.

11. ALVES, Rubem. Protestantismo e repressão. São Paulo: Ática, 1979.

12. É ilustrativo o moto encontrado na pasta de um aluno de um curso de extensão em Cianorte (interior do Paraná): `Eu não sou crente batista. Eu sou batista crente'.

ISRAEL BELO DE AZEVEDO


Comentários   

 
0 #1 Os Dez MandamentosMaria Jose Silva Gom 17-06-2015 16:03
modelo de projeto de pesquiza
 

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