FICÇÕES DE BELÉM, 2 -- A fuga apressada

José estava de cabeça baixa quando Maria entrou, tagarela, vinda do quintal.
-- O menino está uma graça. Logo logo vai falar.
José continuou na mesma posição.
Maria estranhou mas se calou. Era cedo e sabia que logo ele sairia para o trabalho. Devia estar com alguma encomenda atrasada. Os homens são complicados. Eles não confiam. Mesmo se o negócio estivesse, agora tinham ouro, incenso e mirra para ajudar nas despesas. Era só vender um pouco.
Quando ele voltou para almoçar, o rosto não tinha melhorado. Maria continuou na mesma atitude.
De noite, ele mesmo não aguentou:
-- Querida, temos que ir embora.
-- Algum problema na carpintaria? Algum cliente bravo?
-- Não, Maria. Herodes.
-- E o que temos a ver com Herodes?
-- Os magos me chamaram à parte e me contaram a história toda.
-- Que história?
-- Quando chegaram a Jerusalém, causando aquele alvoroço todo, Herodes mandou chamá-los. Eles disseram que tinha nascido um rei por aqui, mas não sabiam em que lugar. Herodes chamou os teólogos e eles garantiram que as profecias que era aqui. Herodes, aquele cínico, pediu que quando voltassem que o avisassem para ele vir aqui adorar o novo rei. Mentira. Deus revelou e confirmou aos sábios que Herodes estava mentindo. Se ele descobrir onde estamos, o facínora vai matar Jesus.
-- Vamos ter que fugir, com o menino tão pequeno? Se ele tivesse pelo menos uns dois anos...
-- E eu não estou entendendo, Maria. Fizemos tudo como Deus mandou. Onde foi que erramos?
-- Você tem certeza, José? Vamos procurar os magos primeiro e ver o que nos dizem.
-- Eles já deixaram a cidade ontem à noitinha. Não foram por Jerusalém e enganaram Herodes, que deve estar furioso e vai atacar.
-- Quando saímos?
-- Agora, Maria!
-- Se tem que ser...
Maria começou a arrumar as coisas. Não eram muitas.
-- Para onde vamos?
-- Temos que cruzar a fronteira para o Egito. Lá estaremos em segurança.
-- Deus vai nos proteger. Chegamos aqui porque ele é bom. Chegaremos à fronteira também.
José ainda saiu. Foi à oficina, pegou umas ferramentas. Eram poucas, trazidas de Nazaré. Podiam ser úteis, para alguma trabalho e até para defesa no caminho.
Jesus dormia no berço feito na carpintaria da família. Na hora de sair, depois das despedidas dos parentes de José, na casa onde aguardavam para voltar para o sul, Maria apertou suavemente o menino contra o peito:
-- Filho, vamos ter que viajar, mas vai dar tudo certo.
Ainda dormiram um pouco para descansar.
Bem cedo, José saiu, olhou em volta na rua. Não havia sinal da polícia.
Seriam alguns dias de caminhada até Gaza e outros até o Egito. Seria difícil, mas estariam em segurança. Lá Herodes não os poderia alcançar.
Partiram.

ISRAEL BELO DE AZEVEDO

 

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