CONTOS DE NATAL: O ENCONTRO

O encontro
(Israel Belo de Azevedo)
 
Depois de voltar para casa, apoiada pelo rabino Simeão, Maria guardou que não deveria demorar para conversar com Joaquim, seu pai.
Naquela noite mesma, enquanto todos dormiam, Maria lhe relatou a conversa com o estranho e depois com o rabino.
-- Filha, você me garante...
Maria o interrompeu:
-- Pai, o senhor me conhece. José não tem nada a ver com isto. O Messias está vindo e será por meu intermédio. 
-- Se é assim, Maria...
-- Pai, tem uma coisa que eu não disse. O estranho, que o Senhor Deus me enviou para me dar a notícia, também me falou sobre Elizabete. Ele garantiu que ela está grávida, já no sexto mês.
-- Sua tia? -- espantou-se o pai.
-- Não soube disso?
-- Eles moram muito longe, no sul, na cidade dos levitas perto de Jerusalém. Estamos sem notícias deles há muito tempo. Esse negócio de mulheres idosas ficarem férteis só aconteceu no tempo dos patriarcas. Sara morreu há muito tempo.
-- Por isto, acho que devo ir até a casa de Zacarias. Pode ser que eu esteja no meio de uma confusão.
-- Maria, é muito longe.
-- Eu preciso ir.
-- Maria.
-- Pai, eu preciso ir.
Joaquim se levantou e foi para o quarto. Ana dormia. 
Maria ficou esperando sem saber o que pensar. Alguns minutos depois, o pai retornou à sala.
-- Quando você quer ir?
-- O mais rápido possível, pai.
-- Você está pronta? São dez dias de viagem no lombo do nosso jumento. 
-- Então, o senhor me deixa ir?
-- Vou falar com Josué para levar você.
Josué dormiu normalmente aquela noite. Ele não sabia de nada. Joaquim demorou, mas logo pegou no sono. Maria apenas cochilou, até o canto do primeiro galo.
Tendo-se levantado, foi logo para a sala com as suas coisas arrumadas numa sacola.
Na segunda hora da manhã, Josué apareceu, também pronto para a partida. E com o dinheiro, que talvez precisassem. Além de roupas, levaram a comida da viagem; água pegariam nas fontes. Ana, que tinha roupas de bebê em casa, mandou algumas de menino -- era o que tinha feitas --, embora ninguém soubesse se Elizabete esperava mesmo um garoto.
Saíram pouco depois da terceira hora. Seguiram primeiramente a pé, Josué à frente, o jumento no meio, Maria ao lado. 
Quando o sol se pôs, seis horas depois da saída, estavam em Citópolis (Bete-Seã, antigamente), numa viagem tranquila. Joaquim tinha advertido contra os ladrões e que também não passassem por Ginae, onde moravam os samaritanos, gente em quem não deviam confiar. Mantido o ritmo, chegariam em 9 dias ao sul.
No dia seguinte, antes de retomarem a caminhada, Josué sempre a pé e Maria alternando, ora a pé, ora montada. Seu irmão, o mais velho entre oito rapazes da família, orgulhoso do seu ancestral patriarca, fez uma pergunta incômoda: 
-- Maria, qual é a sua dúvida?
-- Josué, por que você acha que o enviado de Deus me falou da gravidez da tia Elizabete?
-- Ora, para você saber.
-- Certo, mas não foi só por isto. Acho que ele quis me mostrar que para o Senhor Deus não há nada impossível. O que está acontecendo comigo já aconteceu com a tia Elizabete. Eu preciso ver isto. Você me entende?
Várias vezes este diálogo se repetiu, com discretas diferenças.
Ladrões não viram, mas passaram por uma situação suspeita. Pouco antes de alcançarem Jericó, já bem cansados, um homem parecia que lhes esperava na estrada. Depois do "shalom" que trocaram, o estranho subiu no seu jumento e os acompanhou, como se esperasse a oportunidade de atacar. Como os dois decidiram entrar na cidade das Palmeiras para descansar, não mais viram o homem. Se era um assaltante ou apenas um peregrino como eles, nunca souberam.
Dois dias depois estavam em Bete-Haquerém).
Encontrar a casa de Elizabete foi fácil. Bastou que perguntassem pela casa do sacerdote.
Elizabete veio receber os parentes que vinham de longe. 
-- Eu sou Maria, filha de Joaquim e Ana, sua sobrinha de Nazaré. 
-- Eu sou Elizabete, a esposa do sacerdote, da equipe de Abias.
-- Shalom, tia.
-- Shalom, Maria. Que prazer nos conhecermos.
Antes que se abraçassem e se beijassem, Elizabete começou a chorar.
-- Maria, toca a aqui (apontando para sua barriga). O bebê saltou dentro de mim quando você chegou. Foi a primeira vez, Maria, que isto aconteceu. Ele está alegre com a sua chegada. E eu também. Tenho certeza que vão ser amigos. Tenho muitas coisas para lhe dizer, minha filha.
O que se seguiu foram palavras de arrebatamento.
Elizabete disse, como se cantasse:
-- Eu sei que você espera um filho. Eu sei que o seu filho é o Messias que vai nos salvar. Feliz é você. Felizes somos nós.
Suas palavras calaram as perguntas de Maria, que realmente cantou:
-- Eu me alegro no Senhor Deus. Minha vida está mãos dele para fazer o que quiser de mim. 
Mais disseram.
Em seguida, abraçaram-se longamente e depois se beijaram. Só então entraram em casa, para longas conversas.
Soube Maria, nesses encontros, que sua tia esperava um menino, que deveria se chamar João e que seria um profeta. Elizabete soube que Maria também esperava um menino.
Zacarias estava em Jerusalém, cumprindo seu turno de trabalho no templo.
-- Ele chega daqui a três dias -- informou Elizabete -- e você vai entender com foi este milagre aqui em casa.
Três meses depois, pouco antes do nascimento de João, Maria partiu da casa de Elizabete, para uma viagem que deveria durar os mesmos 11 dias (1 a mais que o normal) da vinda, se tomassem o mesmo caminho. Maria voltava cheia de fé. Quem agora tinha perguntas era seu irmão Josué.
"Messias". Ele não parava de repetir ("Messias"), enquanto segurava as redes do jumento da família, em direção a Nazaré.
 
Israel Belo de Azevedo
 

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