EM BELÉM, NA CASA DE MATATE (UM CONTO DE NATAL)

Dos 14 pastores de Belém, Samuel era o líder.

Quando o primeiro anjo apareceu sobre a colina onde pastoreava, todos correram para lá. Eram 7 as colinas. Quando o sol se punha, cada uma delas recebia o seu guarda. Um ficava no planalto, com uma visão melhor, e outro ficava no vale.

Os que estavam no vale não conseguiram alcançar o topo onde Samuel fizera seu posto. Ele logo desceu e contou o que ouviu de Gabriel:

 

— Amigos, escutem o que o anjo me disse. Hoje nasceu na cidade de Davi aquele por quem esperavam. Se vocês forem até lá, vão ver o que não imaginam. O menino está agora deitado numa manjedoura, coberta de panos pela mãe e as outras mulheres que a ajudaram. Nossa espera acabou.

 

O "nossa espera acabou” foi por conta de Samuel.

Quando ele ainda narrava o que ele e mais três tinham ouvido, o vento soprou mais forte naquela primavera. Como se a Páscoa, que tinham celebrado há duas semanas, estivesse acontecendo de novo, ao vento se seguiu uma melodia:

 

— Hoje trouxemos notícias de paz.

Deem todos glória ao nosso Deus.

Já demos gloria nos céus.

Deus se agradou de vocês.

Vão e verão o que ele faz.

 

Depois de ouvir a canção, assim tão clara, Samuel e os outros desceram até o vale, tomaram o caminho que todos faziam para a fonte de água no meio das colinas. Ali todos se encontraram.

 

— Vamos à casa de Matate. O anjo me disse que o Messias está lá à nossa espera.

 

Antes, resolveram deixar sete cuidando dos rebanhos, subindo e descendo para nenhuma ovelha se desviar. A discussão foi rápida. Samuel sugeriu que fossem os mais jovens, ele incluído, embora fosse o mais velho.

 

— Os jovens precisam de um Calebe — reivindicou — e partiram. Tinham pressa (o que seria aquilo?), mas precisavam caminhar devagar. Tinham começado o turno há seis horas e a fome batia. Belém era a casa do pão, mas eles não tinham nenhum naquela hora. Felizmente o clima era ameno. O inverno, rigoroso, terminara. Tinham que seguir com cuidado, iluminados pela lua.

Tinham que descer e subir, subir e descer, pelas vias improvisadas que o tempo sulcara. Depois de umas duas horas de caminhada, pararam um pouco, junto ao túmulo de Raquel, onde havia alguns poucos bancos de pedra.

Samuel era orgulhoso do seu passado.

— Foi aqui em Belém que meu ancestral ungiu o rei Davi. É por isto que tenho este nome. Isso vocês sabem, mas tem uma coisa que não sabem. Belém um dia caiu na mão dos egípcios, que tiveram que lutar muito para nos reconquistar.

— Quando foi isto? — perguntou Davi, que também se orgulhava do seu nome.

— Foi há muito tempo, muito, muito antes do grande rei, muitos antes de Boaz — completou, para Davi baixar um pouco a sua empolgação.

Seguiram um pouco mais até pararem novamente no poço onde um dia o velho Davi tantas vezes parara. Afastaram-se da rota da caverna de Adulão e, finalmente, ultrapassaram a porta da cidade.

Eli sabia onde ficava a casa de Matate, onde seu parente Eli morava.

O dia já ameaçava surgir, mas vinham luzes lá de dentro. A casa dormia. No andar de cima, as luzes estavam apagadas. Imaginaram que o recém-nascido estivesse no quarto de hóspedes, mas estava escuro em cima. A luz vinha dos fundos. Foram entrando.

O que encontraram os deixou deslumbrados, mas sem palavras. Falavam normalmente muito, mas eram pastores, gente sem crédito, gente impura, gente para ficar calada. No coração, falavam sem parar quanto mais o coração disparava de emoção.

A luz era tênue, mas firme. Assentada num banco de pedra e encostada na parede, uma mulher — a mãe, souberam depois — olhava para o seu bebê. Duas outras mulheres estavam em pé, também em frente à criança, como se estivessem de prontidão para alguma providência. Homens só um — devia ser o pai; sim, era o pai, depois souberam; José, depois lhe disseram —, que controlava uma lamparina de azeite de oliva.

Eles se aproximaram. O recém-nascido (Messias, segundo o anjo Gabriel lhes dissera há algumas horas) estava numa manjedoura, mas não havia nenhum animal por perto. Certamente  descansavam do lado de fora naquele momento. Se aparecessem, o homem da casa os expulsaria possivelmente.

Os sete se aproximaram, mas Samuel tomou à frente. Os outros empurraram os olhos para dentro da manjedoura. Dormia o menino.

Samuel sussurrou a história do encontro com os anjos, fazendo pausas para recuperar a respiração. Os outros se aproximaram. Davi notou — só Davi notou — que a mãe, que parecia bem jovem — deixou que lágrimas escorressem dos seus olhos, mas sem cair no chão.

Davi se aproximou dela:

— Posso pegar no meu colo? Eu não sou pai, mas tenho vários sobrinhos.

A mulher olhou para o marido. Sem palavras, permitiram.

Davi viu um jarro de água no canto à esquerda, lavou as mãos e pegou o menino. Era uma noite silenciosa. Depois dele, Samuel olhou para a mulher, como se pedisse permissão e também pegou o menininho no colo. Como a água acabou, o homem da casa encheu a jarra numa talha maior e todos se lavaram antes de apascentarem o recém-nascido por uns instantes em seus braços.

Tudo em silêncio, no necessário silêncio em que Belém dormia.

Pouco depois, saíram. Quando puseram os pés na rua, soltaram as vozes, um para o outro e depois para quem quisesse ouvir. Parte da cidade acordou.

 

Israel Belo de Azevedo

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