A SEDUÇÃO DA PALAVRA (Resenha)

A SEDUÇÃO DA PALAVRA
ISRAEL BELO DE AZEVEDO
Resenha de “Deus é brasileiro”, de Vamireh Chacon Rio de Janeiro: Rocco, 1991. 193p.

Todo estudioso deseja, em algum momento de sua carreira científica, produzir uma síntese interpretativa do seu objeto de investigação. Para explicar “o imaginário do messianismo político do Brasil”, Vamireh Chacon escreveu esta sua “primeira tentativa de síntese em torno da identidade brasileira mais profunda” (p. 12). Parte ele, então, da óbvia percepção que as lideranças carismáticas e messiânicas são uma presença constante no cenário político nacional.
Certo de que nenhuma nação “consegue romper totalmente com o passado, nem produzir tirando nada” e que “as misturas étnicas precisam ser respeitadas suas contribuições culturais profundas” (p. 164), o professor da Universidade de Brasília compõe três mosaicos coloridos, uma vez que cada capítulo do livro pode ser lido autonomamente.
No primeiro, procura mostrar que há uma “consciência de destino” (p. 150) a perpassar a história, o pensamento e a arte do Brasil, nascido ele mesmo “sob o signo da utopia”. Este imaginário brasileiro é fruto do encontro de três culturas: a indígena, a africana e a ibérica. Enquanto algumas tribos indígenas buscavam uma terra sem mal e alguns grupos negros criavam repúblicas livres, como Palmares, também alguns ibéricos imaginaram viver num paraíso.
“Deus é brasileiro” recorda alguns testemunhos destas heranças, destacando o papel dos dominicanos e dos jesuítas, especialmente Antonio Vieira. Do século XVII, o autor salta para o palco contemporâneo, para registrar as visões de Brasília como plataforma do infinito, oferecidas por “Tia” Neiva e “Seu” Mário no Vale do Amanhecer pelo “profeta” Yokaanam na Cidade Eclética.
No segundo ensaio, além de comparar, na esteira de Vianna Moggo, as colonizações norte-americana e ibero-americana, Chacon procura mostrar o tributo que o imaginário dos bandeirantes paulistas teve que pagar à mentalidade guerreira dos membros da Ordem de Cristo e suas sucessoras, no combate aos mouros e sob cujo espírito nasceu Portugal moderno. O resultado, denunciado, entre outros, por Bartolomé de Las Casas, e novamente recordado pela nova historiografia latino-americana, ao seu aproximarem os 500 anos da colonização européia, foi que este “guerreirismo, sem hereges a combater” acabou por desabar sobre as “costas de ameríndios e negros indefesos diante de arcabouços e canhões ibéricos” como forma de viabilizar o escravismo (p. 101).
Não foi por outra razão, como lembrada no terceiro ensaio, que “a empreitada heróico-comercial das descobertas e colonização dos novos mundos tinha de ser contraditória” (p. 114), como ocorre a todo processo histórico. Embora não a desenvolva, Vamireh Chacon chega ao que parece sintetizar o retrato que pinta do Brasil, cujas raízes estão fincadas no “estamento guerreiro-burocrático, monástico-militar e mercantilista, introduzido no cerne brasileiro pelos cavaleiros-navegadores das naus sob as velas enfunadas com a marca da Ordem de Cristo” (p. 142). O resultado foi um Estado cartorial, cujas origens estão nas práticas do Estado romano.
Por fim, o autor recorda a juventude da sociedade civil brasileira e espera que o futuro viabilize instituições abertas, criativas e firmes.
O propósito, portanto, do autor é explicar o Brasil. Para isto, procura matrizes ilustrativas em experiências de diferentes povos e em nosso próprio passado. Por não se deter em nenhuma época ou em qualquer movimento em particular, o que se lê é uma espécie de tapete de muitas cores, nem sempre combinadas. Além disto, os fios não foram todos tecidos, razão porque o esforço do culturalista brasiliense parece mais uma sinfonia inacabada.
E sinfonia é palavra própria para defini-lo, uma vez que o livro é muito bem escrito. E nisto talvez resida o seu problema básico. Ao fechá-lo, o leitor fica com a impressão que leu um belo texto, redigido num estilo elegante e com direitos a índices bem preparados, mas fica também com a sensação de que não conseguiu perceber o que, afinal, o autor quer demonstrar.
Além de parecer deixar inacabado o seu ensaio, elaborando frases, cuja compreensão exige um autêntico malabarismo pela história universal, como “profetismo calvinista weberiano” (p. 27), para se referir aos fundadores dos Estados Unidos.
Incomoda também ler clichês falsamente belos como “nos confins das Minas Gerais” (p. 28).
O pior mesmo é ter que acompanhar o autor no seu pastoreio de frases óbvias, como: “se o Brasil deixar de imaginar-se para realizar-se, estará perdido” (p. 14); “o povo brasileiro é uma nação em busca de si mesma” (p. 14); “será necessária uma nova paidéia para o Brasil superar as suas contradições internar, consolidar e expandir seu crescimento, ampliar-lhe a ciência e a tecnologia, sem mutilar as raízes culturais do passado no que tiverem de vital e recriativo” (p. 24); “todo povo nasce em meio à luta” (p. 75).
Ora, essas verdades se aplicam a qualquer cultura, até às multisseculares. Todas precisam sempre de ter renovada a sua educação, seja para crescer, seja para não declinar. Propor com meta deste processo uma “proposta ecumênica de paz, desenvolvimento, democracia e humanismo, proposta agora brasileira” (p. 24) é demasiadamente vago.
Fica também sem demonstração a frase de San Tiago Dantas de que “no Brasil, o povo enquanto povo, é melhor que as elites enquanto elites” (p. 54). Chacon parece aboná-lo, ao dizer que o messias do Brasil é o povo brasileiro. Só que seu ensaio não se ocupa de reunir evidências disto, mesmo porque o imaginário estudado é o das elites.
Por tudo isto, a pretensão do autor, em ir além dos estudos clássicos de Agostinho da Silva, Antonio Quadros e Maria Isaura Pereira de Queiroz, aos quais pretende superar, não se realiza. Pelo menos, neste “Deus é brasileiro”.

(Resenha escrita em 1992)

 

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O PRAZER DA PRODUÇÃO CIENTÍFICA

Comentários   

 
0 #1 A SEDUÇÃO DA PALAVRA (Resenha)Franchesca 31-03-2014 15:46
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