AS NOVIDADES OUVIDAS NA SEDE DO PROJETO — Capítulo VI (Ignacio Resende)

Depois de prestarem contas ao Professor Rodolfo e de contarem as ocorrências da viagem e de repetirem as informações contidas na tabuinha nº 11 e de demonstrarem que estavam ávidos para conhecerem o conteúdo das outras tabuinhas que, possivelmente, já tivessem sido traduzidas, passaram a ser informados dos acontecimentos que envolveram o projeto nesse período de três dias de ausência.

Esta reunião, ao ser continuada, esteve muito tumultuada. Na verdade cada pesquisador queria comentar os eventos descritos na tabuinha que traduzira e o Professor Rodolfo teve que intervir, mais de uma vez, para que todos tomassem conhecimento dos últimos fatos que envolveram o projeto.

Sua narrativa foi a que se segue:

a)    O Rei Pedro III ficara muito satisfeito com a narrativa que lhe fora feita pelo Ministro Raposo Perdigão e determinara que fosse completada a tradução de todas as tabuinhas, no menor prazo possível, tendo oferecido um novo premio, a ser distribuído a toda a equipe, em partes proporcionais ao desempenho individual de cada pesquisador, de outras cem moedas de ouro, se a tradução das oitenta tabuinhas fosse completada e organizada em noventa dias;
b)    O Rei Pedro III queria dizer com “organizada” que fossem hierarquizadas todas as informações das tabuinhas, desde a criação de Adão até o desembarque de Noé, após o dilúvio, e os acontecimentos subsequentes e ele, caso viessem a ser parte do “achado de Harã”;
c)    Como, até o momento, havia falta de vinte tabuinhas, a narração obtida deveria indicar as lacunas a ser preenchidas assim que estas tabuinhas faltantes fossem recuperadas;
d)    O Rei Pedro III determinara ao Ministro da Segurança Nacional a busca e captura do Mestre Antonio tendo oferecido o premio de cem moedas de ouro para o militar, detetive ou amador que trouxesse Mestre Antonio vivo ou as vinte tabuinhas faltantes.
Terminada esta exposição do Professor Rodolfo foi dada a palavra a cada pesquisador para que fizesse um resumo do que havia traduzido. Antes do início das exposições foi apresentado a toda a equipe o Redator designado pelo Rei Pedro III para a organização dos textos, o Senhor Miguel Antonio de Santana, autor de diversos livros de pesquisa de assuntos bíblicos relacionados ao Antigo Testamento e pessoa ao mesmo tempo filólogo e um dos diretores da Biblioteca Real.
Foi determinado, também, que fosse mantido, d’agora em diante, sigilo absoluto sobre tudo o que se passasse no projeto, inclusive, relativo aos seus familiares, sob pena de prisão em cela individual, sem direito a qualquer regalia, tais como contato com outros prisioneiros e banho de sol.

1.    A Tabuinha nº 12 (tradutor: pesquisador Joaquim dos Santos)

Nesta tabuinha Noé relata a Abraão sobre a orientação de Deus a respeito da construção de altares e dos sacrifícios para a remissão de pecados. Noé explicou que estas informações haviam sido repassadas a ele por seu avô que as ouvira de Adão.
Adão havia sido orientado por Deus, depois de ter pecado por comer o fruto que Eva lhe dera e que fora colhido da arvore da “ciência do bem e do mal”, ao lhes fazer túnicas de peles para os vestir, sobre o sacrifício de animais para a remissão de pecados.
Disse-lhes Deus: vou sacrificar este “cordeiro” que tem sido seu companheiro no Éden, por saber que tanto você quanto Eva o amam muito, uma vez que os vejo, a cada dia, com ele em seus braços. Vocês vão sofrer e esse sofrimento tem o objetivo de lembrá-los que pecaram ao me desobedecer ao comerem do fruto da árvore que lhes havia indicado que se dele comessem iriam morrer. Será um sacrifício que irá exigir que coloquem suas mãos sobre a cabeça do animal e que cortem,  com esta faca de pedra, sua garganta. Para que vocês não tenham, no futuro, que repetir este sacrifício de sangue, recomendo-lhes que não voltem a pecar. No entanto, como agora conhecem o mal, estão sujeitos a voltar a pecar, vocês e seus filhos, a quem devem ensiná-los sobre esta maneira de se arrependerem da prática do mal.
Também, para demonstrar que tudo o que vierem a obter é resultado de concessão minha, uma vez que sou o criador e mantenedor de todas as coisas, lembrem-se de me agradecer sempre que seus animais tiverem crias e  que fizerem suas colheitas , através da oferta do primogênito dos animais e das primícias das colheitas, respectivamente. Os seus agradecimentos irão alegrar o meu coração e, então, continuarão a ser abençoados.
Finalmente, edifiquem um altar de pedras, em local bem visível, para os seus sacrifícios pelos pecados e as suas ofertas de agradecimento.
Em seguida, retirou a pele do cordeiro e lhes deu para se vestirem.

2.    A tabuinha nº 14 (tradutor: pesquisador Mário de Santana)

Nunca havia chovido antes do dilúvio em Pangéia, foi a forma como começou a falar sobre a diversidade metereológica que havia vivido, tão diferente dos dias atuais. Assim, começou a me contar Noé, nesse encontro que passo a relatar, explica Abraão. Quando eu falava ao povo que Deus iria mandar chover durante quarenta dias e quarenta noites e que toda a terra seria inundada, sem permitir condições de vida para quem não estivesse embarcado na arca, cuja estrutura havia sido mostrada por Deus para suportar essa catástrofe, não existindo nada similar na face de Pangéia, as pessoas perguntavam: “o que é isso?” e quando eu respondia como seria elas saiam dando gargalhadas e dizendo: “você está louco! Não conhecemos chuva. Nós temos sempre esse vapor que irriga toda a terra e as plantas.”
Essa incredulidade os mantinha em suas maldades. Nada temiam! E por mais que pregasse, e para tantos preguei sobre o extermínio daqueles que não estivessem na arca, não havia mudança em nenhum coração. E eu com os meus filhos continuávamos a cortar as arvores de gofer, a transportar os seus troncos no carroção e a prepará-los de modo que tomassem a forma do grande barco que havia testado arduamente no modelo reduzido. Meus filhos me entendiam porque tiveram as mesmas aulas que eu, embora, em ambiente completamente diferente, pois, a maldade estava em todos os corações. Nada faziam com amor! Qualquer atividade tinha que ser remunerada e não apresentava a qualidade esperada para a remuneração exigida. O ensino era sem alegria! Os professores, como meus filhos contaram agiam, exclusivamente, baseados na remuneração que lhes eram pagas à qual não faziam jus! O vinho tornara-se um companheiro inseparável das pessoas, mesmo para os meus colegas mais jovens. E embriagados caiam pelas ruas, deixavam de preparar os seus trabalhos práticos e o curso se arrastava sem interesse dos alunos e muito menos dos professores. Uma coisa parecia realmente louca: “os alunos pagavam para estudar e viviam sempre fugindo das suas responsabilidades!” Como tudo havia mudado desde a época em que estudei. E à medida que ouvia o relato dos meus filhos e observava as pessoas a quem procurava salvar da morte certa via e sentia o quanto desprezavam a própria vida! Quantas brigas presenciamos, pois, a construção da arca passou a ser ponto de visitação das pessoas para nos escarnecer, em que, sem nenhum motivo que justificasse, um matava o outro e, ainda, ia ferido para sua casa levando suas dores físicas e seu coração endurecido pelo ódio e pelo desprezo à minha pregação em que lhes oferecia a esperança de salvação e, esta estava na arca que estava construindo, e que para essa salvação não havia nenhum preço a pagar!
Posso dizer-lhe Abraão: “foram dias muito difíceis esses em que empenhamos, eu e minha família, tanto na construção da arca quanto na oferta de salvação às pessoas. Quando entramos na arca e sua porta foi fechada por fora por Deus sentíamos profunda tristeza pelos que iam morrer e grande alívio em termos recebido misericórdia do Senhor.”

3.    A Tabuinha nº 7 (tradutor: pesquisador Manoel Teixeira)

Houve um dos patriarcas que não conheci que me disseram ter sido um homem especial para Deus pelas suas grandes virtudes. Era trabalhador, mas, nada fazia sem se comunicar com Deus, embora, não o visse! Ele falava com Deus com tal convicção que os que com ele conviveram sentiam que Deus estava ali, tão presente quanto eles! Seu nome: Enoque. Aconteceu com ele uma coisa extraordinária: cada vez que me vem a mente o relato, fico arrepiado! Certo dia ele chamou sua esposa e seus filhos e filhas, e disse-lhes: hoje, de manhã, ao convidar o Senhor para me acompanhar na confecção dos queijos de leite de cabra, nossa principal fonte de renda, Ele disse: “Enoque, você tem sido tão meu companheiro que estou decidido a trazê-lo para viver bem junto de mim. Não quero, no entanto, que isso aconteça sem que sua família tome conhecimento; assim, peço-lhe que os reúna, hoje à noite, e lhes explique que passará a viver comigo. Continue a agir como sempre você tem agido. Em um momento, nos próximos dias, num “piscar de olhos”, você deixará a terra e será trazido para o céu, para continuar a viver bem junto de mim. Não vou lhe adiantar como é o céu, porém, lhe garanto que você terá muitas surpresas e elas serão muito agradáveis. Aqui, por exemplo, você não verá o tempo passar! No céu não existe essa dimensão. Esse exemplo não será a sua maior surpresa. Você não irá perceber que aqui não existe essa dimensão. Estou adiantando essa informação, apenas, para que você a transmita à sua família. Ninguém deve ficar triste com sua ausência, pois, será temporária, diante do fato que todos estarão aqui comigo se continuarem a seguir o seu exemplo de profunda e respeitosa amizade comigo. Mais uma coisa: você está doente. Essa dor que sente no peito, cada vez que corre para trazer uma das cabras para o aprisco é decorrente da redução da capacidade de seu coração bombear o sangue para as artérias. Essa não seria, no entanto, a causa para a sua morte, pois, estou ensinando seu filho Matusalém, sobre a cura, através da dieta de certos alimentos, como o queijo de leite de cabra e alguns exercícios físicos; ele encontrará, também, algumas combinações de alho e limão que, quando misturadas em determinada proporção e tomadas como chá, irão produzir a cura com esse recurso natural. Esse chá tomado duas vezes ao dia será o medicamento para essa dor que você sente e, ainda, Matusalém será o homem que viverá mais tempo na face da terra. Esse será um contraste interessante: você, o pai, terá a vida mais curta entre os patriarcas de sua época, desde Adão, e seu filho, a mais longa! Eu sou assim, Enoque, faço projetos e ofereço sabedoria aos que me amam e, ainda mais, Eu os amo a todos com uma intensidade que você daqui a alguns dias terá a oportunidade de sentir, estando aqui comigo, ao conhecer essa e muitas outras coisas em toda a sua plenitude. E nunca mais sentirá qualquer dor, tristeza ou aborrecimento.”

4.    A Tabuinha nº 16 (tradução: Irmãos João Carlos e Diego)

Os informantes a respeito do conteúdo desta tabuinha vivem em Petrópolis e empolgados com esta narrativa de acontecimentos tão esclarecedores de um passado remoto foram, espontaneamente, conversar com o Professor Hasselman e este, depois de muito insistirem permitiu que tivessem acesso aos cinco volumes em que reunira o material até, então, coletado no Brasil e em diversas viagens a vários países em busca de pistas que levaram a informações, cada vez mais preciosas, sobre as tabuinhas de Harã.  Ao lerem esse material encontraram a tradução da tabuinha nº 16 e decidiram formatá-la e entregá-la ao autor desta narrativa fidedigna, a título de contribuição. Prometeram, ainda, preparar outras interpretações para o que estão lendo para que possam ajudar aos leitores desta epopeia a trazer a lume esse revolucionário achado do Professor Ramalho.