Dias terríveis — Capítulo XII (Ignácio Resende)

A tabuinha número 21 trazia a descrição do dilúvio universal. Eis o relato de Noé. Meu caro Abrahão: hoje vou falar a você como fui impactado com o dilúvio. O Senhor me disse que deveria entrar na ‘arca’ com os animais que me trouxera e que a chuva iria começar dentro de sete dias. Entramos. Eu, minha mulher, meus filhos Sem, Cam e Jafé e suas mulheres. Eramos oito. A arca foi fechada por fora pelo Senhor. Ninguém dos habitantes da Pangéia quis receber a salvação oferecida pelo Senhor por meu intermédio. Durante cento e vinte anos havia pregado sobre o extermínio de todos os seres viventes que habitavam a terra e que a ‘arca’ que estava construindo era o local da salvação. O único! Foram sete dias de espera. Nesse período o povo lá fora escarnecia de nós. Ouvíamos os seus gritos dizendo: você é louco Noé! Onde está a chuva? Nós nem conhecemos chuva! O que conhecemos é o orvalho que molha a terra a cada dia. Como é a chuva? Você diz que ela virá do céu; porém, o céu continua do mesmo jeito!
 
Passados os sete dias, bem de manhã, para que todos vissem, mesmo que por um único instante, o mar que circundava Pangéia, começou a se abrir e um finíssimo jato de água começou a subir com tal estrondo e com tal intensidade que tivemos que tampar os ouvidos com as mãos e a nossa vista não conseguia ver a altura que o jato ia alcançando. As suas velocidade e pressão eram tais que, em pouquíssimos instantes, aquele primeiro jato tornara-se uma cortina que se perdia de vista no horizonte. O jato inicial era cada vez mais espesso e arrastava com ele pedras e lama. Pensei comigo: a terra está rachando! Era essa a sensação! E aquele jato inicial era agora uma massa imensa de água e, onde era seco, onde estava a ‘arca’, a algumas centenas de metros acima do nível do mar, o mar revolto já levantava a arca enfurecidamente. A sua inclinação, a cada onda violenta do mar, atingia valor perto do limite dos meus estudos naquele modelo que havia feito para os ensaios. Foram momentos terríveis. Creio que a morte foi muito rápida para todos que estavam fora da ‘arca’. Até hoje, quando me lembro daqueles dias, fico pensando de onde teria vindo tanta água que cobriu os montes mais altos de Pangéia, cuja altitude máxima era de cerca de dois mil e quinhentos metros. E a ‘arca’ era arrastada com tal fúria que eu ficava pensando que todo o trabalho que tivera estava agora sendo posto a prova. E tive uma grande preocupação que a ‘arca’ navegasse na direção do monte que chamávamos de Everest, distante cinco dias de viagem a cavalo, e que ela se arrebentasse contra ele, embora procurasse, continuamente, mudar a direção em que era arrastada. Havia, porém, o risco de outros montes tão altos quanto aquele, em outras direções. Assim, tinha que estar procurando manobrar sempre a ‘arca’ no sentido de que se mantivesse o mais próximo possível do lugar onde fora construída. Eram ações reflexivas, pois, nada se via do lado de fora da arca, a não ser uma massa violenta de água que dava a impressão que a ‘arca’ era uma casquinha de noz. Ao mesmo tempo a minha preocupação com as guinadas que sofríamos, sem controle, e os trancos que os animais estavam sofrendo. E prometia a mim mesmo que tão logo terminasse aquele massacre iria procurar curar os animais feridos. Esse massacre, que pareceu uma eternidade, deve ter durado cerca de duas horas. Imagino que toda a água que vinha das profundezas da terra, exercia enorme peso sobre a terra e que esta estivesse afundando para ocupar o volume de água que estava sendo bombeado de seu interior. Essa ação envolvia forças tremendas e as consequências para a terra que iria habitar, no futuro, seria uma deformação em tal magnitude que nunca mais reconheceria nela a minha velha terra! Terminado esse período violento, a chuva continuou sem nenhuma trégua até completar os quarenta dias e as quarenta noites, conforme me falara o Senhor.
 
De onde teria vindo tanta água? Fiquei imaginando que esse jato contínuo e inicial de água tenha se dividido em duas partes: uma, a parte menor, tivesse ficado retida na superfície, ao ser lançada, e outra parte maior, o interior do jato, tenha subido a grandes alturas, talvez muitos quilômetros. E de lá ia se precipitando ao longo desses quarenta dias e noites. Essa, meu caro Abrahão, são as minhas impressões. Foram dias terríveis e gostaria que você anotasse essas minhas impressões para que essa catástrofe, no futuro, ao ser analisada pelo homem, possa ter esse primeiro embasamento para que a descrição possa ser cientificamente teorizada e que ninguém possa colocar em dúvida esse acontecimento único da história da humanidade. Em outro dia irei lhe falar da minha surpresa de ter visto, como você também já viu, montes tão altos que alcançam os céus, muito maiores dos que existiam na Pangéia. Da mesma forma quero que você entenda que a mudança da terra foi de tal ordem que agora ela está dividida em vários pedaços de terra, como tenho ouvido falar pelos viajantes que, ao navegarem pelo mar, encontram outras terras longínquas e quando voltam trazem notícias a respeito de suas descobertas. Isso não se ouvia em nossos anos de vida na Pangéia.
 
Nota ao leitor: existem três teorias científicas para explicar o dilúvio. Uma, a teoria da precipitação da camada de vapor ou de gelo que circundava a terra, conforme mencionada em Genesis. Ela não subsiste a uma análise técnica, pois, se ela tivesse, por exemplo, doze metros de espessura de vapor, como foi proposto pelo autor da teoria, quando se condensasse e rompesse a camada da atmosfera atingiria temperatura de cerca de 450 graus centígrados e torraria os habitantes de Pangéia e não os mataria afogados, como aconteceu. Por outro lado, essa espessura de vapor ao se condensar representa apenas dez centímetros de água, insuficiente para causar um dilúvio.
 
Outra é a teoria das placas tectônicas. Esta, também, não foi aceita como a origem do dilúvio por não explicar de onde veio toda a água necessária para produzir o dilúvio. Ela se baseia na movimentação das placas tectônicas e estas ao se moverem, o que implica em grandes quantidades de energia, não explica a movimentação de grandes quantidades de água.
 
A terceira é a teoria das ‘hidroplacas’ proposta em 1980 por Walter Brown.  Está é a teoria que foi sintetizada neste capítulo e que é a mais aceita pelos criacionistas. Como é uma teoria está sujeita a ser derrubada. Dizem os cientistas que crêem em Deus, como criador de tudo o que há, que: “toda ciência devidamente estabelecida e toda Bíblia corretamente interpretada nunca cairão em contradição”. Se essa for a teoria devidamente estabelecida e que vier a sobreviver, pois, satisfaz os acontecimentos descritos na Bíblia, então, o engenheiro Walter Brown foi inspirado por Deus. Você, caro leitor, se estiver curioso em aprender mais sobre este assunto que tanto tem preocupado os estudiosos, visite o Google e digite “O Dilúvio de Genesis – Adauto Lourenço” e você terá muitas palestras para ouvir e que procuram tratar cientificamente dos temas que envolvem o dilúvio. Procure, também, no Wikipédia a descrição da teoria das hidroplacas digitando no Google o nome de Walter Brown. A principal base para esta teoria está na Bíblia que explica que o Senhor fez a separação das águas no capítulo 1, versos 6 e 7, e as águas ficaram com uma expansão entre elas. Pesquisas feitas indicaram que existe uma camada de água com salinidade dupla em relação à salinidade dos mares, há cerca de onze a doze quilômetros de profundidade. Essa camada é remanescente de uma camada que se encontrava a essa profundidade, com cerca de um quilômetro de espessura, e que submetida a grandes pressões, conseguiu abrir caminho entre a rocha e iniciou o processo de ejetar-se a cerca de vinte quilômetros de altura arrastando lama e pedras. Ou seja, além de água, houve um arraste de muita quantidade de material. Essa a soma de água e de sedimentos que levou à universalidade do dilúvio e aos resultados catastróficos que causou alterando, definitivamente, as características da terra em relação à sua forma original, a Pangéia.