Ensaio sobre o Último Beijo sem Limites (Teresa Cristina Reis)

Indubitavelmente vivemos à beira do abismo. Cercados por limites como paredes de concreto. Tais limites surgem como necessidades da própria vida – a necessidade de não permitir que algo (geralmente não agradável) se estenda infinitamente. Já na vida animal o limite é implícito, embutido. Daí sua força: as espécies animais conseguem evitar os perigos por mecanismos simples e inerentes a elas. Mas daí sua fraqueza – se surgir um perigo para o qual elas não estão preparadas, nada poderão fazer. Diferentemente dos animais a espécie humana vem ao mundo sem estes limites implícitos. Precisa, então, de limites vindos de fora. Aprendidos. Mas esta é por sua vez, a grande vantagem da humanidade: a capacidade de inventar novas defesas contra perigos inesperados. Infelizmente não é sempre que conseguimos tal feito. Portanto, o ser humano continua sempre a viver à beira da morte. Viver consiste em não ultrapassar esta barreira.
 
Em Santa Maria, Rio Grande do Sul, Brasil, na madrugada do dia 27 de janeiro de 2013, jovens ultrapassaram a beira da morte ao entrarem em uma caixa de pólvoras. Foram entrando, leves, inocentes, soltos, felizes, eufóricos, animadíssimos, contagiados pela balada que tanto tinha a oferecer para a necessidade inerente ao jovem de viver intensamente e sem limites. Foram chegando com seus amigos, foram arrastados pela imensa vontade, pelo profundo desejo de serem felizes. Ir à uma balada é uma das formas de buscar o auge da felicidade. Ser feliz ao extremo, por vezes sem limites.
 
No entanto, estes mesmos jovens, na sua natural busca pela intensidade, se sentiam seguros e protegidos. Não repararam que estavam ingressando em uma tragédia
pré-anunciada. Não poderiam imaginar que seriam protagonistas de uma cena funesta. Ao entrarem na balada do Beijo (KISS) da morte entregavam uma quantia que proporcionava esta segurança. O valor pago para terem acesso à boate KISS assegurava suas felicidades tão almejadas naquela noite. Era a garantia da felicidade.
 
Porquanto havia o consumo e este deveria ser pago antes de irem embora e se jogarem deliciosamente em suas camas e dormirem felizes, relaxados, completos, satisfeitos, plenos de renovação, esgotados, porém reenergizados para prosseguirem suas vidas na universidade ou na escola como estudantes super qualificados, trabalhadores honrados. Certos de que ainda teriam a chance de realizar tantos outros sonhos. Ainda maiores. Pois bem, o boleto de consumo que é fundamental para o próspero negócio deveria ser pago quando saíssem. Era uma regra. Deveria. A qualquer preço. Mesmo que fosse a VIDA o preço – a VIDA daqueles jovens que entraram naquela caixeta de pólvora para, paradoxalmente, obterem ainda mais vida.
 
As portas da caixeta estavam cerradas, mais que cerradas, trancadas. E LEÕES impediam a saída dos cordeirinhos. Não havia portas suficientes para o ambiente. Comandas, estas haviam, aos montes. Estas com certeza não faltaram. Todavia não havia saída. Havia paredes. Havia acústica. Acústica havia para abafar o som, os gritos de horror dos jovens promissores deste país. Jovens quebrando paredes, quebrando os limites – que naquele caso não deveriam estar ali, pois eram limites em excesso. Que aprisionam. Paredes em lugar de portas. Guris com seus corações sangrando, encharcados também, que colaboravam com os bombeiros enternecidos,misericordiosos,cheios de compaixão. Jovens desesperados, querendo, precisando salvar a vida dos seus queridos companheiros, pois assim estariam salvando a si mesmos. Anjos sem asas.
 
Era este um lugar realmente inspecionado pelas autoridades competentes? Um lugar onde 2.000 (duas mil) pessoas poderiam entrar, porém, não teriam como sair tão facilmente? Uma só porta? Até as janelas estavam bloqueadas! Não tinha ar! Trancafiaram a vida dos meninos e meninas que queriam mais vida. Pararam os corações dos estudantes.
 
E por último, o show. Claro, o palco. O mágico palco musical. Também queriam mais os músicos. Apenas suas vozes e seus instrumentos musicais não eram necessários para atrair a multidão. Era preciso o show além do show para assegurar que a multidão ficasse encantada, subisse às alturas. O show pirotécnico realmente subiu às alturas. Subiu e inflamou. Susto! Não, não é nada, o extintor de incêndio resolve isto. O músico então utiliza seu último recurso para atrair a multidão. Porém desta vez tal recurso não cumpriu seu dever. Só havia um extintor de incêndio para 2 mil pessoas? O fogo consumiu. Ardeu. Queimou.  A fumaça tóxica asfixiou. Os jovens lutaram, porém foram consumidos. Exauriram-se. Certamente quando se vai a uma danceteria você tem que pagar a consumação, que geralmente tem um limite mínimo. Só que naquela madrugada de Domingo, dia 27 de janeiro de um Novo Ano, a consumação foi máxima, foi ilimitada. Infinita. Desesperada. Alarmante mesmo sem alarmes de incêndio. A consumação foi pisoteada, sufocada junto com os sonhos daqueles jovens campestres que amavam as flores, os animais, os campos, o céu e o mar, que amavam a liberdade. Que eram livres. Foram trancados. Encerrados. Tudo foi consumado.
 
Os limites são fundamentais para o equilíbrio vital. O excesso de um lado e a deficiência do outro levaram à morte. Levarão à morte. Sempre. Pois sem limites o que existe não é LIBERDADE, mas LOUCURA. CAOS. Esperançosamente, o animal humano é o mais capaz de APRENDER – com a própria experiência e com a experiência alheia. Portanto, desta piro-tragédia resta-nos simplesmente chorar e aprender, reaprender, a fim de revivermos.
 
E Deus, onde estava numa hora destas? Por que Deus permitiu isso?  Deus não é bom! Deus, que Deus? Não, não posso conceder que diante de tantas falhas humanas alguém ainda ouse culpar a Deus. O Deus que até nem acreditam existir. Sejamos responsáveis por nossos próprios atos e peçamos, humildemente, ajuda, sempre. Para fazermos o nosso melhor, mas sempre conscientes de que somos os autores de nossos próprios destinos. Deus nos dá liberdade para agir, porém não é responsável pelo nosso despreparo, pela nossa ganância, imprudência e anarquias.  Não, não me venha com esta de que Deus não existe simplesmente porque não salvou aqueles guris. O que não existe é o respeito do ser humano para com o próprio ser humano. O que falta é o amor ao semelhante. SEMELHANTE. IGUAL. AMOR IGUAL.
 
Sem a base do AMOR e RESPEITO o que há é este comportamento anti-social, delinquente. Mortificador. Que aterroriza. Que queima, sufoca, arde. Que não permite que desfrutemos da vida ao lado do melhor, ao lado dos CORAÇÕES DE ESTUDANTES. Descansem em paz jovens cansados de correr. Vivam em paz agora em seu novo lar; e cantem, cantem, cantem; e dancem, dancem, dancem…
 
Com inspiração no texto de Davy Bogomoletz: Do Desenvolvimento Emocional Primitivo à Tendência Anti-Social: Para uma Teoria Winnicottiana da Delinquência (Março 2007) e na música CORAÇÂO DE ESTUDANTE de Wagner Tiso e Milton Nascimento. Com os olhos batendo e o coração alagado por Santa Maria.