O CULTO DA JACA (Flavio Mattos)

Um dos privilégios de ser filho do Milton Mattos foi poder ouvir as suas pregações.

Embora não seja pastor, nem tenha formação teológica formal, meu pai é um evangelista incansável. Durante anos a fio comparecia, aos sábados, à praça Saens Peña para ações evangelísticas.

A função social das praças públicas naqueles dias era diferente. Sem ambulantes e sem tanta pressa, eram locais da livre expressão de opiniões. Entre os transeuntes era comum o interesse em ouvir algo novo. Nesse ambiente meu pai, com outros membros da Igreja Batista Itacuruçá pregava a palavra de Deus a ganhar almas para Cristo.

Algumas das mais doces memórias de minha infância estavam nos mutirões da família para dobrar folhetos evangelísticos que meu pai escrevia, mandava diagramar, e imprimir com seus próprios recursos.

Certo dia ele perguntou se eu o acompanharia a uma igreja que o convidou a pregar. Bem cedo entramos no seu fusquinha azul, e rumamos para lá.

Lembro que rodamos por longo tempo! E como naqueles dias sequer se sonhava com GPS, erramos o caminho várias vezes. Mas perguntando aqui e acolá, chegamos à igreja.
Fomos recebidos com enorme carinho.

Eu fui para a Escola Bíblia dominical das crianças, enquanto o papai seguiu para a dos adultos. Sentei-me num longo banco de madeira velha, carcomido pelo tempo, sem recosto, que parecia um pouco sujo. Não eram nem de perto as instalações acolhedoras da minha amada Ita.

Era uma igreja pobre.

Quando chegou a hora do culto, papai foi convidado ao púlpito. Começou com um longo silêncio para causar maior impacto. Depois inquiriu:

– Qual é o texto áureo da bíblia?

Para os crentes recém-chegados, o texto áureo é um texto escolhido dentro da passagem em estudo, que representa, melhor do que qualquer outro, o significado daquilo que se estuda. É a síntese! A essência!

Naqueles dias em que as pessoas investiam mais tempo debruçadas sobre suas bíblias até que ficassem rotas pelo uso, o conceito era muito familiar. Tanto que alguém no salão respondeu em alta voz:

– João 3.16

Papai, com um sorriso sob o bigode que então ostentava disse:
– Muito bem! Todos sabem de cor? Vamos recitá-lo? – convidou.
E a igreja, em uníssono, declamou:
– Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê, não pereça, mas tenha a vida eterna!

De fato, essa mensagem resume de forma densa toda a essência da teologia cristã e do real significado da palavra Cristo. Papai reiterou esse fato estabelecido, ao que todos assentiram prazerosamente.

A seguir avançou para uma pergunta instigadora:

– E qual é o versículo áureo do cristão?

Papai cultivou o silêncio da plateia por alguns instantes e acrescentou:

– O versículo áureo da vida cristã, muito fácil de guardar, é 1 João 3.16:

“Nisto conhecemos o que é o amor: Jesus Cristo deu a sua vida por nós, e devemos dar a nossa vida por nossos irmãos”.

Durante a meia hora seguinte meu pai ensinou que, uma vez que esteja salvo, Deus convida a todos os cristãos a viver para o socorro dos necessitados, ainda que isso implique risco pessoal, porque esse é o exemplo Cristo.

Foi uma mensagem profundamente impactante.
Lembro-me que ao fim do culto o pequeno salão estava profundamente silencioso e que todos se levantaram sem pressa. Dentre todas as palavras de meu pai, estas, proferidos numa igreja cujo nome ninguém mais recorda, foram as que me marcaram mais profundamente.

Enquando nos despedíamos o pastor e os líderes da igreja porfiavam conosco desejando  agradecer de algum modo. Contudo, nem a igreja tinha nada, nem papai aceitaria algo. Foi quando um irmão mais criativo lembrou a imponente jaqueira que vivia no terreno da igreja. Cansado de recusar, e temendo ser mal compreendido, papai aceitou esse presente.

Teve início uma complicada manobra improvisada para derrubar a jaca. Um membro não hesitou em sujar a sua roupa de domingo para escalar a árvore e cortar o gigantesco fruto, enquanto outros ficaram a postos para aparar a queda.

A jaca era tão grande que mal coube no pequeno porta-malas do fusquinha. E desde então, nas histórias de família, aquele culto é lembrado como “culto da jaca”.

Mantenho sempre em mente estas lembranças, como um contraponto de nosso evangelho contemporâneo, centrado em nossas próprias necessidades, quer para pedir, quer para agradecer. Até que ponto eu estou, de fato, disposto a colocar-me em desconforto ou risco para auxiliar um irmão?

Decidi então escrever para repetir o convite de Paulo que meu pai fez anos atrás:
“Filhinhos, não amemos de palavra, nem de boca, mas em ação e em verdade” (v18)
E eu, como filho, como aluno, testemunho que papai não apenas pregou, como viveu e vive essa verdade essencial e inescapável do evangelho.

Deus me deu o privilégio de ter Milton Mattos como pai, mestre e exemplo.