Encerrado o jantar e as confraternizações os dirigentes de cada delegação foram encaminhados para seus apartamentos, dentro da própria Universidade, e as suas delegações para o Hotel Universo, o mais próximo e o mais confortável de Petrópolis, o único hotel cinco estrelas do centro da cidade e bastante próximo da Universidade. Não é necessário dizer que os repórteres e fotógrafos estiveram sempre a postos e em busca de alguma notícia que pudesse ser televisada e/ou publicada nas edições da manhã seguinte nos canais televisivos e nos jornais matutinos. Vale mencionar que o Pastor José Carlos Miranda e o Padre Antonio Vidal de Medeiros, ambos de Petrópolis e antigos desafetos teologicamente foram o prato cheio para essas reportagens, tudo girando em torno da declaração do Papa Mariano III que em sua posse em outubro de 2011 dissera que “a religião católica era entre as religiões cristãs a única verdadeira”. As argumentações do Padre em defesa dessa afirmativa estavam baseadas no seu entendimento que Pedro, o primeiro Papa, tivesse ouvido de Jesus que “o que ligares na terra será ligado no céu e o que desligares na terra será desligado no céu”, ao que contrapôs o Pastor que além da interpretação estar fora do contexto isso não autorizava ao Papa permitir que a sua igreja se enchesse de imagens, desde sua aliança com Constantino, para atrair à igreja os adoradores de ídolos pagãos e, assim, permitir que se sentissem em casa! A essa afirmação contrapôs o Padre que ‘as imagens não são ídolos, a quem os fiéis devam render adoração, como nos templos pagãos. Imagem nenhuma possui um poder oculto ou latente, em virtude do qual se lhe deva prestar culto ou veneração’! E, ainda, que é proibido fazer petições às imagens e nelas depositar uma confiança como se fossem doadoras de graças e benefícios. A imagem deve ser para o católico um meio, um instrumento, que lhe facilite elevar os pensamentos acima desta terra, às coisas sobrenaturais e divinas’, e é isto que se interpreta quando se lê o catecismo. Arrematou, então, o Pastor que, ‘sem essas finalidades, não há razão para que existam, seria, então, mais proveitoso colocar versículos bíblicos, por exemplo, pois, Jesus disse “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim”. Ora, existindo um único mediador, definido pelo próprio Jesus, não há razão que justifique a existência de outros possíveis mediadores, como poderia ser interpretado pelos católicos, embora o próprio catecismo indique as imagens como obras de arte para elevação do espírito durante a oração. Essa discussão teológica continuou e deu material suficiente para os noticiários matutinos e muito mais foi dito entre eles, o que foi, realmente, o ponto negativo dessa reunião de natureza ecumênica, o que contradisse a tudo o que havia sido observado no período do jantar, em que Deus e sua maravilhosa misericórdia haviam sido o tema central das conversas entre os representantes das diversas religiões abraâmicas!
Cada dirigente, à porta de entrada de seu quarto, recebeu um envelope lacrado das mãos do Reitor Angelo Tavares, e a informação que o envelope continha a transcrição em inglês da ‘tabuinha nº 2’ e que esta, como fora comunicado anteriormente pela Reitoria, continha revelações feitas a Abraão por Noé acerca das razões que levaram Deus a decidir pelo extermínio de cerca de dois bilhões de pessoas, conforme se pode calcular, considerando o período de 1656 anos entre a criação de Adão e o dilúvio universal, segundo a Lei de Maltus. O conteúdo desta tabuinha seria analisado, no dia seguinte, às 10 horas, em sessão secreta, com participação dos dirigentes das delegações, do Reitor, do Professor Hasselman e do Mestrando Otávio, únicas pessoas a conhecerem o conteúdo desse documento.
O conteúdo da ‘tabuinha nº 2’ foi analisado por cada dirigente e, no dia seguinte, após muitas discussões e tentativas de redações que registrassem o consenso havido, seguiu-se o comunicado sobre o seu conteúdo. Como havia sido combinado, o conteúdo integral da tabuinha nº 2 foi incinerado em um incinerador portátil na própria sala de reuniões anexa ao Escritório do Reitor. Além disso, foi assinado um Termo de Confidencialidade, cujo detalhamento foge ao escopo desta descrição cabendo ser mencionado que continha penalidades financeiras vultosas a serem pagas à Universidade como compensação pelos danos morais que poderiam ser a ela impostos por uma ou mais das lideranças das religiões abraâmicas.
O comunicado à imprensa falada e escrita foi liberado às 14 horas do dia 9 de agosto de 2012. O seu conteúdo foi publicado na íntegra nos principais jornais do dia seguinte e lidos pelos ancoras das cadeias televisivas do mundo todo, em edição extraordinária, assim que recebidos nas redações.
Disse Noé a Abraão: o que vou relatar a você, hoje, é o resultado de minha avaliação pessoal a respeito das razões pelas quais Deus decidiu pelo extermínio dos que não ouvissem o Seu chamado para que fossem salvos na arca que me mandou construir. Vou começar falando de corrupção e depois comentarei sobre maldade e, em seguida, finalizarei unindo corrupção e maldade.
Como, agora, já tenho visto, nestes meus prováveis últimos dias de vida, ‘o ouro e as pedras preciosas são a fonte principal de corrupção’. E foi em razão do ouro da terra de Havilá que tudo começou. Até, então, o arsenal de pecados praticados pelos homens ainda não havia atingido o da corrupção; esta surgiu quando o homem verificou que o ouro e as pedras preciosas eram raros e não perecíveis. Passou, então, a ser referência nas trocas de bens entre as pessoas. Os que garimpavam esses minerais passaram a ser a primeira fonte de discórdia, pois, quando um veio de ouro ou uma pedra preciosa eram encontrados a morte passou a ser praticada com tal intensidade e frequência que o metal e as pedras passaram a ser chamadas de ‘achados de sangue’! Eram pais contra filhos, filhos contra pais, amigos contra amigos, sócios contra sócios, dependendo de quem achava o veio ou a pedra. A morte rondava os garimpos. Atrás vieram as mulheres, em busca de ouro e de pedras, oferecendo o corpo como moeda de troca. E estas eram, também, mortas, visando à recuperação do pagamento feito. E da área de garimpo, o rastro de sangue seguia os que sobreviviam e que, ao conduzir suas fortunas, eram mortos em emboscadas, surgindo assim as quadrilhas e estas se transformavam em cartéis e estes, cada vez mais poderosos corrompiam os responsáveis pela ordem pública e pela aplicação do código de ética, moral e bons costumes que vinha sendo estabelecido e que evoluía à medida que era aplicado, tendo por estrutura o que veio a se tornar depois do dilúvio o ‘código de Hamurabi’. E a corrupção seguiu essa trilha e chegou à classe dirigente, composta de mandatários da ordem e dos bons costumes em cada cidade, construídas nos moldes já indicados no capítulo IV. Em consequência passaram a um crescimento desordenado, trazendo a fome e a devastação dos recursos naturais, base de sustentação da vida de cada comunidade. Estes mandatários, vendo que suas riquezas cresciam em razão da venda de libertação para os assassinos, os quadrilheiros e os dirigentes de cartéis, começaram a armar seus empregados, criando equipes mercenárias de proteção que, à medida que crescia exigia mais remuneração, o que levou a que estes se sentissem na necessidade de ampliar seus territórios trazendo, em consequência, as guerras de conquistas, principalmente, contra os mais prósperos, visando à obtenção dos despojos. E uma população que, pela Lei de Maltus, poderia ter atingido cerca de sete bilhões de pessoas, nesse período pré-diluviano, ficou reduzida a cerca de dois bilhões de pessoas às vésperas do dilúvio.
A maldade teve seu início quando os ‘filhos de Deus’ viram as ‘filhas dos homens’ e tendo achado que eram bonitas passaram a se unir com elas. Dessas uniões com os nefilins, palavra que significa “aqueles que caíram do céu” nasceram homens gigantes e, pelas suas estaturas, não tiveram dificuldade em se tornarem valentes e passarem a dominar os homens de estatura normal. A descrição que posso dar a você Abraão é que estes homens que desciam à terra (filhos de Deus) tomavam as mulheres como parceiras sexuais, escravizavam os homens e entregavam a estes conhecimentos de engenharia, astronomia, astrologia, magia, medicina, etc..Esse descer do céu pode soar muito estranho a seus ouvidos, porém, essa era a descrição que todos ouvíamos, ou seja, eles literalmente desciam do céu em veículos estranhos e com roupas, também, completamente diferentes das nossas! Não chegamos a descobrir se eram oriundos de outras partes inexploradas de Pangéia, que tiveram outro nível de desenvolvimento que a parte em que habitávamos e que poderiam ser descendentes de Caim, o filho de Adão, que cometeu o primeiro assassinato da espécie humana pela morte de seu irmão Abel. O progresso, em consequência, começou a assumir proporção vertiginosa e os homens adquiriam conhecimentos que os levaram a entender que não precisavam mais de Deus e, a cada dia, se pervertiam mais e torturavam e matavam outros seres humanos com o mesmo sangue frio com que matavam um porco ou uma galinha. Seu tamanho e suas armas (desenvolvidas com o conhecimento que detinham) levavam a não temer a nenhuma reação de seus escravos. E quem se atrevesse a enfrentá-los era aniquilado. A profissão que melhor era bem vista por esses homens agigantados era a de armeiro. O armeiro aprendeu com eles a malhar o ferro após aquecê-lo, tantas vezes quantas necessárias e a cada nova arma o resultado era uma arma mais comprida, mais afiada e mais resistente. E elas guarneciam a esses nefilins.
A associação dos que buscavam fortunas e poder, sem escrúpulos, com estes agigantados e seus escravos, promoveram a união da cobiça com a maldade, gerando um caldeirão de tal magnitude que certamente levou o nosso Deus a decidir pela extinção dos que não se arrependessem de seus caminhos e se preparassem para a salvação que lhes era oferecida, a cada dia de descanso de minhas tarefas de construção da arca. Vale lembrar que esta arca me foi encomendada pelo meu Deus com dimensões capazes de receber muitas pessoas, pois, tinha esperança que houvesse muitos arrependidos dispostos a uma mudança radical de vida. Embora o Senhor me tenha dito que havia se arrependido de ter criado o homem, diante de sua perversidade e que decidira por eliminá-lo da terra, sentia sempre, em suas palavras, que, no fundo do seu coração, esperava que uma nova geração de homens, como me designara “justa e íntegra entre o meu povo” fosse o formador de um novo povo, em uma nova terra, lavada pelo dilúvio e livre da corrupção e da maldade daqueles tempos que tenho meu caro Abraão, desejo muito profundo de esquecer!