Vida na Fazenda — Capítulo XIV (Ignácio Resende)

Em um novo encontro entre Abrahão e Noé, o que está descrito na tabuinha nº 15, foram abordados aspectos da vida familiar de Noé, com sua esposa, seus filhos e noras e as suas atividades de fazendeiro. Como disse ele a Abrahão, ‘vou falar um pouco das preparações que Deus fez conosco para que pudéssemos vir a ser os escolhidos para a construção da gigantesca arca que nos encomendou e que nos ocupou dia a dia durante 120 anos’.

A fazenda e suas atividades principais:

A fazenda a que me refiro foi iniciada por Enoque, meu bisavô. Portanto, uma fazenda que esteve em nossas mãos durante cerca de mil anos. (Aqui, cabe comentar o quanto nessa fazenda foi desenvolvido em tecnologias, tanto agrícolas como industriais, aplicadas à agricultura como, também, manejo florestal e criação de animais e o aprimoramento das raças. Comparo este milênio de mentes privilegiadas e vividas aos pés do Senhor com o milênio de duração do império romano e seu desenvolvimento tecnológico, militar e na formação de leis que chegaram aos nossos tempos e que são aplicados, nos dias de hoje; refiro-me aos códigos romanos.)

Mas, deixemos que fale Noé. Ele, organizando suas ideias, falou sobre o que chamou de preparação por Deus das principais atividades dessa fazenda milenar. Claro que a agricultura familiar foi executada de forma continuada, durante esse milênio, e visava à produção de alimentos para a família e os seus empregados. Assim, plantavam de tudo, principalmente, hortaliças, legumes, frutas e cereais. Perguntado por Abrahão se criavam animais para a alimentação respondeu que não, exceto aves para o consumo de ovos. Não comiam carne, conforme preceituava a orientação divina. Ele, Noé, passou a comer carne depois do dilúvio, uma vez que essa era a única fonte de alimento, nos primeiros meses, após aportarem em uma terra devastada pelo dilúvio, em que ainda não havia produção de alimentos e os que foram trazidos na arca mal davam para alimentar os animais até o crescimento da relva para as pastagens. Havia naquela fazenda milenar algumas especializações importantes, fonte de troca de seus produtos por ouro, e que foram: a) a criação de cavalos; b) o manejo florestal; e c) a construção de embarcações para navegação fluvial.

A criação de cavalos: em seu período de vida na fazenda essa era uma atividade muito lucrativa, pois, os cavalos que criavam eram comprados para competições. As competições ocorriam nas principais cidades de Pangéia e elas envolviam parte significativa de seu tempo em viagens de negócios, em uma das quais veio a conhecer Tecnópolis, onde fez sua especialização em construção de embarcações. Em outra viagem conheceu sua esposa Judite, em uma das fazendas que criava cavalos de carga, onde fora trocar o produto da venda de um lote de cavalos de corrida por outro lote de cavalos de carga para o trabalho duro em sua fazenda, principalmente, no manejo florestal. E como era Judite, quis saber Abrahão? Ao que Noé respondeu que o primeiro encontro foi muito simples, enquanto que verdadeiramente marcante, pois, ela montava um dos cavalos de carga, quando chegou à fazenda de seus pais, e eu montava o meu corcel favorito, que se chamava Bucéfalo.

Ela, quando viu a minha chegada em um cavalo negro de porte imponente, perguntou logo se poderia fazer uma caminhada naquele animal. Propus, então, que ela o montasse e eu montaria o seu cavalo; isso feito, cavalgamos pela fazenda e ela explicava, muito animada, sobre as atividades que ali eram desenvolvidas e eu falava das nossas, em nossa fazenda e, assim, passamos um par de horas prá e prá cá, em absoluto esquecimento das outras coisas e de nossos próprios objetivos; houve, portanto, imensa sinergia entre os nossos pontos de vista e as nossas maneiras de viver. Então, naquele devaneio, perguntei a ela, se era casada ao que ouvi que não e, em seguida, perguntei sobre suas crenças e ela me disse sobre o seu Deus que era, também, o meu Deus. E à medida que aprofundávamos em nossos pontos de vista concluímos que éramos almas gêmeas. Voltei várias vezes à fazenda da família de Judite até que a convidei para a nossa união. A festa de casamento durou uma semana e, até hoje, dois anos depois de sua morte, sei que ela foi colocada em minha vida pela poderosa mão de nosso Deus, pois, vivemos sempre juntos, identificados com as tarefas que Dele recebemos e, portanto, fomos muito felizes, já que foi uma vida sob a direção de Deus. Os cavalos que criávamos em nossa fazenda, dos quais veio um casal magnífico na arca, deixado em sua porta por Deus, é da raça conhecida entre os criadores dos dias de hoje como Árabe. Outro casal de cavalos que veio na arca, também deixado por Deus, pois, era Ele que fazia as escolhas e que entregava os animais à porta da arca, trazido da fazenda de Judite, cavalos de carga, são conhecidos hoje como Haflinger.

Manejo florestal: um dos principais usos de madeira de nossa propriedade era o obtido do corte das arvores da espécie conhecida como ‘gofer’, muito usada em embarcações pela leveza, baixíssima porosidade e grande durabilidade. Quem tinha uma embarcação de gofer dizia que comprava uma para o resto da sua vida! Eram embarcações caras e, a atividade de corte e de preparação das embarcações era uma atividade muito rendosa. Ao longo do milênio de existência de nossa propriedade foram sendo desenvolvidas as tecnologias que aplicávamos, várias delas relacionadas ao manejo florestal. Lá foi inventada, por um dos cortadores de gofer, ao tempo em que eu era muito pequeno, uma técnica de corte que praticamente eliminava as perdas devido a troncos ocos. Não se derrubavam arvores ocadas, pois, reduzia o aproveitamento da parte lenhosa em quase 40%. Esse trabalhador desenvolveu um método de auscultação que permitia, mediante batidas no tronco, definir se era ou não um tronco cheio. Outra técnica, desenvolvida pelo meu avô Salém, era realizar o corte quase ao nível do solo, permitindo tanto maior aproveitamento do lenho quanto, através de uma intrincada sequência de cortes e cunhas, direcionar e deitar a arvore no chão sem rachar. Essa técnica que era chamada de ‘escadinha’ resultava em menor índice de perdas, se aplicada a um planejamento prévio cuidadoso, e permitia direcionar o corte para reduzir substancialmente os danos à floresta. Sempre, era feito esse planejamento discretizado em etapas anuais, mensais, semanais e diárias. Cada uma dessas etapas exigia a coleta de informações relacionadas às encomendas, que partia da equipe de vendas, normalmente feitas com um ano de antecedência, em função da escolha do modelo da embarcação, pois, tínhamos três modelos básicos e havia casos de encomendas que exigiam novos projetos, as encomendas emergenciais, com demanda de revisões mensais e os detalhamentos semanais e diários. Cada dia os cortadores saiam para a floresta com a definição das árvores que seriam cortadas, cuja numeração era feita por outra equipe, a de planejamento. Nossa floresta era dividida em quinhões e estes eram revisitados a cada vinte anos, tempo de desenvolvimento das arvores com diâmetro de até vinte centímetros, pois, o corte se dava de arvores com diâmetro mínimo de quarenta centímetros. Nunca nos faltou arvores para a nossa atividade construtiva, mesmo quando todo o corte de gofer foi inteiramente direcionado à construção da arca. Muitos de nossos experimentados trabalhadores na floresta diziam que ela era fonte inigualável de suprimento, pois, “quando tinham fome, quando precisavam de remédio, quando precisavam de descanso, iam à floresta e lá encontravam alimento, cura e lazer”.

Construção de embarcações: vender cavalos e construir barcos eram as minhas atividades favoritas. Meus filhos gostavam, também, muito dos cuidados e do adestramento dos cavalos e eram meus auxiliares na construção dos barcos. Meu avô Salém, face aos seus conhecimentos e experimentos na área de metalurgia, ficava com as tarefas relacionadas às emendas das peças de madeira e aos reforços estruturais das embarcações. Desenvolveu, ainda, um eficiente sistema de navegação que permitia direcionar os barcos em busca do melhor aproveitamento dos ventos. Isso tornava os nossos barcos cada vez mais procurados e alegrava nossos corações por sabermos que produzíamos o que de melhor se fazia em Pangéia. Foi esse sistema de navegação que, instalado na arca, permitiu que tivéssemos o controle da mesma, evitando que pudesse ir à deriva e de encontro a uma das montanhas, antes que suas alturas tivessem sido superadas pelas águas do dilúvio. Os nossos projetos recebiam constantes aprimoramentos, pois, os nossos clientes, vindos dos mais diferentes pontos de Pangéia, fossem mineradores de ouro, políticos ou grandes mercadores queriam, cada vez mais, embarcações maiores e mais seguras. Era, portanto, um negócio próspero e muito edificante e ocupava as nossas famílias, desde meu avô Salém, meu pai Lameque, eu e meus filhos e vários empregados, embora, cada vez mais escassos e desinteressados do trabalho sério, preferindo viver longe de Deus e na prática de maldades que os levou à morte. Abrahão, mais uma vez, interrompeu essa narrativa tão entusiasmada de Noé, para perguntar de seus tios, primos e irmãos, ao que Noé apenas respondeu: eles fizeram o que era mau aos olhos do Senhor e foram afogados no dilúvio. Assim, desde que começamos a construção da arca ficamos somente meu avô, meu pai, eu e meus filhos nesse trabalho. Judite e minhas noras passaram a ocupar integramente das culturas que asseguravam a nossa alimentação. Agora, sem empregados, tínhamos que ir cortas as árvores, transportá-las, aparelhá-las e montar a arca, conforme o projeto que recebi do Senhor. Novamente, Abrahão pergunta: então, o projeto da arca, foi proveniente das mãos do Senhor? Sim, respondeu Noé; Ele me deu as dimensões, a forma de estruturar a embarcação com vergalhões de ferro, o uso ainda mais intenso do betume, pois, as camadas de betume sugeridas pelo Senhor eram mais espessas que as que usávamos, enfim, as conversas com o Senhor eram frequentes, tanto para perguntar, quanto para ouvir suas intervenções, do tipo: Noé, isso que você está pensando não é a melhor solução! Eu não discutia com o Senhor, apenas, obedecia e via, a cada orientação que dEle emanava, o quanto é sábio e simples! Este conselho posso lhe dar meu caro Abrahão: deixe que o Senhor dirija a sua vida e você verá o quanto ele o transformará em homem manso, tranquilo e sábio!