“Quando Cristo chama um homem, ordena-lhe que vá e morra”. (Dietrich Bonhoeffer, 1906-1945) Preparado para ser pregado na IB Itacuruçá, em 24.11.2002 (noite). Como vivida por Jesus, a graça nos incomoda. A graça de Deus é o oferecimento gratuito da vida de Jesus Cristo para que, por meio do Seu sacrifício, todos possamos ser salvos. Há muitas pessoas confrontadas com esta verdade, mas que não a aceitam porque ela é simples demais. Há alguns que propõem algum tipo de pagamento, por meio, por exemplo, de reencarnações sucessivas, por julgá-las mais justas, ou por meio de da manutenção de um sistema religioso repleto de proibições, vistas como necessárias para o crescimento espiritual ou santificação. Quem pensa assim está julgando de modo correto a graça: ela não é justa e, por isto, é graça, e é pena que quem pense assim não a receba, porque não a quer…Não há nada que possamos fazer para merecer esta graça. Segundo o resumo do apóstolo Paulo, ela é uma concessão gratuita de Deus, em Jesus Cristo.Ajuda-nos a entender a idéia da concessão compreender aquilo que faz a legislação federal sobre certos serviços. Para se tornar concessionária de um serviço público (na área do transporte, por exemplo), a empresa precisa se qualificar e ganhar uma concorrência. Depois de um certo julgamento, “ganha-se” a concessão. Ainda há pouca semelhança desta concessão com a concessão da graça, porque a empresa precisa provar que merece explorar o serviço. No caso da radiodifusão ou teledifusão, as regras são diferentes. O poder executivo pode conceder uma emissora de rádio ou televisão para quem quiser, geralmente em retribuição a algum serviço prestado antes ou a ser prestado no futuro, pressuposto que a empresa terá condições de prestar o servico. No Brasil, a concessão se tornou um instrumento de negociação para fins políticos. Aqui a semelhança é maior, porque a concessão é fruto da vontade do poder executivo. No entanto, a semelhança pára aí, porque no caso da graça, Deus age sem qualquer interesse pessoal e Ele concede a Sua graça a todos, não a apenas a alguns “protegidos”. Como nos ensino o apóstolo Paulo, somos salvos pela graça, mediante a fé; [ela] não vem de nós; é dom de Deus; [ela] não de obras, para que ninguém se glorie. Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou antes para nós as praticarmos (Efésios 2.8-10). Ela não decorre da nossa bondade; antes, vem curar a nossa maldade. Não há nada que possamos fazer para exagerar o impacto desta graça. Na verdade, nossa atitude deve ser outra diante de oferecimento tão magistral: Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna (Hebreus 4.16)Não há nada que devamos fazer para baratear esta graça. Antes, devemos estar atentos para não a transformarmos numa graça barata. Se ela não nos custou nada, custou tudo a Jesus Cristo: sua própria vida.Desde o início, a compreensão da realidade da graça, totalmente nova e única na história das religiões, tem provocado muitas incompreensões.O evangelho da graça do Senhor Jesus Cristo teve que enfrentar diversas tentativas de negação. Os legalistas, em todos os tempos, acham que ela precisa da cooperação das obras para que possa dar seus frutos. Os libertinos, em todas as épocas, acham que tal é a liberdade que traz que nenhum compromisso se espera de quem foi alcançado e salvo por ela.O Cristianismo tem sofrido demais com a dificuldade de os cristãos entenderem e viverem sob esta graça, bem compreendida. Temos uma enorme facilidade para nos passar para outro evangelho (Gálatas 1.6), desligando-nos de Cristo (Gálatas 5.4).Ao longo da história, alguns cristãos têm levantado suas vozes para profetizar acerca da verdadeira graça. Paulo, o principal deles, deixou bem claro que assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida (Romanos 5.18). Nós somos justificados gratuitamente (Romanos 3.24), portanto.Diante dos legalismos, Paulo adverte que, se é pela graça que somos salvos, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça (Romanos 11.6). Se a justificação é mediante a lei, a conseqüência lógica é que Cristo morreu em vão (Gálatas 2.21).Diante dos libertinismos, Paulo nos lembra: Nós, porém, que somos do dia, sejamos sóbrios, revestindo-nos da couraça da fé e do amor e tomando como capacete a esperança da salvação (1 Tessalonicenses 5:8). Cada um de nós desenvolver a salvação gratuitamente recebida (Filipenses 2.12). O prazer do salvo é crescer na graça, segundo a instrução de outro apóstolo (2Pedro 3.18). 2Nós fomos comprados por um alto preço e não podemos nos deixar escravizar (1 Coríntios 7.23) por nenhuma negação da graça. Antes, devemos glorificar a Deus em nossos corpos (1 Coríntios 6.20), mesmo que isto signifique sofrer por ele, como Paulo e Pedro sofreram, como, na Alemanha nazista, Martin Niemöller (1892-1984) e Dietrich Bonhoeffer sofreram.Para muitos cristãos, pastores inclusive, o nazismo estava correto no seu anti-semitismo e no seu projeto de supremacia nacional. Uma organização cristã defendia que os não-arianos deviam ser proibidos de participar, ministrar ou ensinar nas igrejas. Muitos se opuseram, como Niemöller e Bonhoffer. Há uma pequena história que nos ajuda a entender como os cristãos alemães estavam divididos. Numa manhã, Niemöller foi visistado na prisão por um pastor, luterano como ele, que lhe perguntou, surpreso:— Irmão, o que você fez. Por que está aqui?Niemöller respondeu:— Irmão, diante do que está acontecendo em nosso país, eu lhe pergunto: por que você não está aqui?(Disponível em <http://www.allsaintssunderland.ang-md.org/id64.htm>. Acessado em 17.11.2002) Niemöller foi libertado pelos aliados da prisão onde aguardava a execução ordenada por Hitler. É atribuído a ele um dos mais importantes poemas em defesa da consciência cívica: “Quando os nazistas vieram atrás dos comunistas,eu me calei: eu não era comunista. Quando prenderam os sociais-democratas,eu me calei: eu não era social-democrata.Quando eles vieram procurar os