O PRINCÍPIO BÍBLICO DO DEVER MASCULINO DO AMOR Efésios 5.25-33a Pregado na IB Itacuruçá, em 6 e 13.8.2006, parte 1, e 3 e 10.9, parte 2, manhãs Um de meus tios achava que fazia parte de sua masculinidade não revelar a ninguém, nem a sua esposa, o quanto ganhava por mês. Acho que ela nunca soube. Ele nunca deixou faltar nada; só não deixava ninguém saber de sua vida financeira. Fechado, calado, embora manso, meu tio representava um tipo de homem, que ainda existe, mesmo à margem. Com a mudança nos papéis femininos, também incluídas no mercado de trabalho fora de casa, este perfil deixou de ser predominante. O compartilhamento de informações e de contas a pagar, por exemplo, tornou-se um ideal em muitas sociedades.Tanta foi a transformação que os papéis de homem e mulher deixaram de ser distintos, confundindo-se até. Em algumas situações, o resultado tem sido uma sobrecarga sobre a mulher, encarregada de papéis múltiplos, dentro e fora de casa. Sozinha, ela acaba não dando conta de seu papel; não por ocaso, a expectativa de vida da mulher, que era muito maior, vai se aproximando da média do homem.A insatisfação feminina, tanto o peso e tanta a omissão dos seus cônjuges, vai se ampliando, especialmente diante do ideal maior pelo qual ela se casa: o desejo do companheirismo.O apóstolo Paulo, inspirado pelo Espírito Santo, percebeu esta dinâmica na relação marido-esposa, ao propor a submissão mútua, da qual derivam a submissão feminina e o amor masculino, como deveres capazes de permitir o prazer e o compromisso em dimensões saudáveis. Escrevendo aos efésios, ele estabelece a regra áurea para a vida familiar:“Sujeitem-se uns aos outros, por temor a Cristo” (verso 21). Em seguida, em três versos e meio ele oferece o dever feminino (versos 22-24; 33b):“Mulheres, sujeite-se cada uma a seu marido, como ao Senhor, pois o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, que é o seu corpo, do qual ele é o Salvador. Assim como a igreja está sujeita a Cristo, também as mulheres estejam em tudo sujeitas a seus maridos” (versos 22-24). (…) Portanto, (…) a mulher trate o marido com todo o respeito” (33b). Ao tratar do dever masculino, o apóstolo desenvolve em oito versos e meio seu argumento, a partir da mesma idéia da submissão mútua (25-33a): “Maridos, ame cada um a sua mulher, assim como Cristo amou a igreja e entregou-se por ela para santificá-la, tendo-a purificado pelo lavar da água mediante a palavra, e para apresentá-la a si mesmo como igreja gloriosa, sem mancha nem ruga ou coisa semelhante, mas santa e inculpável. Da mesma forma, os maridos devem amar cada um a sua mulher como a seu próprio corpo. Quem ama sua mulher, ama a si mesmo. Além do mais, ninguém jamais odiou o seu próprio corpo, antes o alimenta e dele cuida, como também Cristo faz com a igreja, (30) pois somos membros do seu corpo. (31) “Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne.” [Gênesis 2.24]Este é um mistério profundo; refiro-me, porém, a Cristo e à igreja.Portanto, cada um de vocês também ame a sua mulher como a si mesmo” (versos 25-33a). O CONTEXTO PAULINOQuando chamei de inspirada esta palavra, não o fiz apenas por crer na inspiração divina para a Bíblia, mas notar o quão fora de contexto está a instrução paulina no ambiente em que viviam, ele e seus leitores.A idéia do amor (ágape) como uma exigência para o homem era algo muito estranho para o seu tempo. Em sua época, o esposo/pai era o chefe absoluto da família; ele era o senhor de sua esposa, de seus filhos, das esposas dos seus filhos, dos sobrinhos, dos escravos e dos libertos, podendo dispor deles e de suas vontades, o que incluía levá-los à morte. O mundo romano, portanto, era o mundo do homem, que tinha decidia até se um bebê viveria ou não. O poder masculino na família era absoluto. Ele podia matar uma mulher que lhe fosse infiel.A propósito, o homem não mudou muito neste quesito. Segundo uma pesquisa feita no Brasil, 17% das mulheres declararam ter sofrido algum tipo de violência doméstica em suas vidas. Deste total, mais da metade (55%) afirmou er sofrido violência física, seguida pela violência psicológica (24%), violência moral (14%) e violência sexual (7%). (SENADO FEDERAL. Violência doméstica contra a mulher. Disponível em <http://www.pflmulher.org.br/RelatorioViolenciaContraMulher.pdf>.)Em Roma, a maioria dos casamento era arranjada. A partir dos 12 anos, a mulher podia se casar, mas isto acontecia geralmente aos 14 anos. O divórcio podia ser obtido com facilidade, sem apresentação de provas. Tullia (79-45 a.C.), irmã do grande orador Cícero, se casou aos 16, ficou viúva aos 22, casou-se aos 23, divorciou-se aos 28, casou-se de novo aos 29, divorciou-se novamente aos 33 e morreu aos 34 anos de idade.Diferentemente das mulheres atenienses, mantidas segregadas, as mulheres romanas, cuja função essencial esperada era a da maternidade, podiam fazer compras e coordenavam a vida no interior da casa, para onde os homens voltam tarde da noite, depois de terem se encontrado com os amigos num banho público.O amor conjugal era absolutamente irrelevante. Em muitos casos, o amor era visto como ridículo e não como algo a ser buscado. Pompeu foi considerado efeminado por causa de seu amor para com sua jovem esposa Júlia. Falar de amor em público era inaceitável. Os casais não se beijavam em público, nem mesmo no rosto.Este padrão autoritário venceu os séculos, chegando suavizado aos nossos dias. Encontramos também, especialmente depois das transformações sociais e econômicos a partir do século 19, homens omissos, como se vivessem à parte de sua família.A recomendação bíblica é clara: o marido deve amar a sua esposa como a si mesmo. Esta instrução, assim sintetizada, é expandida pelo apóstolo Paulo em quatro orientações. 1. Há uma especificidade de papéis.A primeira orientação bíblica, neste contexto, é que marido e mulher têm papéis complementares na vida