PORQUE PRECISAMOS DA GRAÇA DE DEUSPregada na Igreja Batista Itacuruçá, em 17 e 24.2.2002 Em janeiro de 2002, morreu João Filson Soren, aos 93 anos de idade. Pastor da Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro por cinco décadas (e este risco os irmãos não correm comigo…), serviu como capelão na Segunda Guerra Mundial. No exercício de sua perigosa missão, viu granadas explodirem corpos de companheiros ao seu lado. Era sua tarefa, entre outras, preparar os feridos para a morte, num tempo e numa circunstância em que os recursos médicos eram limitados. Por isto, ele até hoje é lembrado como o grande capelão dos militares brasileiros.Ele também é lembrado porque durante todo o seu pastorado, pregou a cada primeiro domingo do ano um sermão baseado num mesmo versículo bíblico: “dize aos filhos de Israel que marchem” (Êxodo 14.25).Estive no seu funeral, quando Fausto de Aguiar Vasconcelos, atual pastor da Primeira Igreja Batista do Rio, lembrou que um dos motos de Soren era viver “no compasso da graça”. Foi, para mim, a mais completa explicação sobre uma vida, frase que deveria biografar todo cristão, que pode, então, ser definido como aquele que vive no compasso da graça.Mas o que é graça? Precisamos ler Gálatas, Efésios, Filipenses e Colossenses (e de resto, todo o Novo Testamento, onde ela aparece 132 vezes), para defini-la, mas não é o que faremos.Quando eu era estudante de teologia, nosso prazer era discutir todos os assuntos, de preferência aqueles que mostrassem que éramos mais sábios que os nossos professores. Um deles, depois de nos ouvir, sempre saía com uma condição prévia, que complicava nossas vidas:— Precisamos definir os termos (isto é, as palavras).Esta é uma regra para qualquer exposição. Precisamos definir as palavras que usamos. Precisamos dar o significado que damos aos termos, para que a exposição prossiga.No entanto, à palavra “graça” esta regra não se aplica. Então, não vamos defini-la: não tem graça defini-la, como não tem graça definir amor, que toda criança sabe o que é desde bebê, embora ninguém lhe tenha definido. Os cristãos sabemos o que é graça, porque ela nos tem envolvido.Assim, comecemos por afirmar que nós precisamos da graça de Deus. 1. PRECISAMOS DA GRAÇA DE DEUS PARA SERMOS JUSTIFICADOSA biografia de Noé contém uma frase curta e definidora: Noé, porém, achou graça aos olhos do Senhor (Gênesis 6.8). A Bíblia não explica porque os olhos do Senhor viram com graça o pai de Sem, Cão e Jafé.Gosto desta expressão, precisamente porque não a entendo, mas mais exatamente porque ela descreve todos os cristãos cujas vidas são centradas em Cristo (porque não é cristão quem tem a vida centrada em si mesmo…), de modo que poderíamos reescrevê-la: nós, porém, achamos graça aos olhos do Senhor.Noé tinha pecado, mas achou graça aos olhos do Senhor. Nós estávamos mortos em nossos delitos e pecados, mas Ele, por sua graça, nos perdoou todos os pecados (Colossenses 2.13), especialmente o pecado original (isto é, a culpa original: o pecado de achar que podemos nos justificar (redimir, salvar) a nós mesmos.Especialmente nos últimos 100 anos, temos sido entupidos com o ideário de que não existe culpa, que toda a culpa é uma produção da cultura. No entanto, a Bíblia é muito precisa quando afirma que todos somos culpados pelos nossos pecados. O pecado entrou no mundo por Adão, mas ninguém é condenado pelo pecado de Adão, mas pelo seu próprio pecado.O ideal de uma sociedade melhor, de um mundo justo, por uma produção humana, seja pela educação, seja pela ciência, seja pela política. O que temos visto é um mundo injusto e violento, no plano pessoal e no plano coletivo. Merecemos assim a justiça, a justiça de Deus, isto é, o castigo por nossa culpa, porque Deus é justo.Há pessoas que, teoricamente pelo menos, desafiam esta justiça, achando que Deus pode julgá-las, porque passarão pelo tribunal e serão absolvidos. A história e a Bíblia mostram que não uma pessoa justa sequer diante de Deus (Romanos 3.10). Há justos aos próprios olhos, mas não diante dos olhos de Deus. Na verdade, nenhum de nós consegue viver apenas com a justiça de Deus.Tranqüilizarmos em função desta realidade é o ministério literário e teológico do apóstolo Paulo. Em várias de suas epístolas, ele insiste que, pelo sangue de Jesus Cristo, o Pai nos deu vida, juntamente com Cristo (Efésios 2.5), segundo as riquezas da sua graça (Efésios 1.7).Esta verdade fica ainda mais clara em Gálatas 3.11-14. É evidente que pela lei ninguém é justificado diante de Deus, porque: O justo viverá da fé; ora, a lei não é da fé, mas: O que fizer estas coisas, por elas viverá.Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro; para que aos gentios viesse a bênção de Abraão em Jesus Cristo, a fim de que nós recebêssemos pela fé a promessa do Espírito.(Gálatas 3.11-14) Paulo, portanto, mostra que é evidente que pela lei ninguém é justificado diante de Deus, porque “o justo viverá da fé” (Gálatas 3.11). Uma definição para “lei” é “esforço humano”. Não há nenhum prêmio para quem cumpre a lei, mas há o castigo para quem não a cumpre e é flagrado. Se alguém declara direitinho o Imposto de Renda e recolhe o que deve, não recebe uma carta de “parabéns”. Mas se não declara ou não recolhe… Se um motorista anda no limite de velocidade, um guarda não o pára para cumprimentá-lo, mas se o radar registra excesso… Se um consumidor pega algo no supermercado e paga, não recebe um telegrama do presidente da companhia ou um aperto de mão do segurança, mas não se não paga…É isto que a Bíblia está dizendo: ninguém é justificado, isto é, considerado justo, por cumprir a lei, mas todos que não a cumprem são condenados. A lei, na verdade, é o código que nos condena. Estávamos, pois, condenados, até que a graça de Deus entrou em ação: Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por